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11 janeiro 2015

Goodbye


Eu te amo, mas talvez eu ame mais outro alguém. Por isso me despeço de você. Se nada der certo nos encontramos daqui a uns dias. Voltamos a nos encontrar. Voltamos a ser um do outro. Mas por enquanto, preciso me despedir.

Eu te amo, mas há tanto a ser vivido. Tantos rostos pra eu amar, tantos pra eu velar enquanto dormem, do jeito que eu faço com você. Se nenhum rosto me distrair como você hoje me distrai, te ligo. Mas por enquanto preciso viver.

Eu te amo, mas talvez esteja enganado. Dizem que nessa idade a gente se engana. Vai ver tudo não passou de um erro. Tudo não passou de confusão. E se o acerto for voltar pra você, juro que volto.

Eu te amo, mas não deve ser para vida toda. Preciso achar esse meu amor. Aquele que vai durar uma eternidade. Com quem terei meus filhos e envelhecerei. Se nenhum outro amor durar, passo na sua casa. Eu sei que você não vai se mudar.

Ouvindo: Goodbye - Natalie Imbruglia

28 dezembro 2014

Será errado?


Será errado pensar em você quando a noite chega e eu me tranco no meu quarto? Será errado imaginar você e a sua boca roçando na minha orelha enquanto diz alguma coisa da qual irá se envergonhar no futuro? Será errado me sentir o homem mais poderoso quando vejo em minha mente meu corpo dominando o seu? Será errado amar seu coração e querer sua virilha ao mesmo tempo? Será errado imaginar sua pele clarinha e macia debaixo desse tecido velho que você usa de segunda a sexta?

Depois de toda a alegria que eu gero em meu corpo. Depois que os pelos dos meus braços se assentam novamente na minha pele. Depois que eu consigo fechar os olhos, já cansado. Só depois que eu penso em todas essas coisas. Enquanto me culpo por ser como sou, por não resistir à fantasia que tenho de você. Suas coxas meio abertas, sentada na minha cama de solteiro, me chamando para acompanhá-la, enquanto o Lanterna Verde nos observa no pôster do meu quarto.

21 dezembro 2014

Futuro


Das noites que nos divertiremos, guardo o seu sorriso. Você vive animada com a possibilidade de toda uma vida de amor. Sim, nós envelheceremos e não nos esqueceremos do que é sentir esse amor. Nem teremos vergonha, como nossos contemporâneos. Nós amaremos a vida, a música que toca no carro, aquelas noites.

O vento que bate no seu cabelo é o mesmo que me leva para um futuro, quando andaremos de mãos dadas por qualquer lugar que seja. Andaremos ainda que tenhamos sede. Andaremos porque é o que fazemos de melhor. Sonharemos com o futuro e com a felicidade verdadeira guardada nele.

Você já não fica melancólica com qualquer voz áspera que toca no meu Philco e eu estou sempre ao seu lado para te colocar uma flor atrás da orelha, como venho fazendo desde muitos anos atrás. E tudo vai valer a pena porque você vai sorrir naquelas noites. Esses sorrisos alimentam até hoje os meus sonhos, quando me sinto cansado, mas nunca para te acompanhar.

30 novembro 2014

Maria


Maria era menina para casar. Sempre soube disso, desde que a vi, correndo no mato, debaixo do sol de setembro, que é lindo aqui na nossa cidade. E de vez em quando ela virava para trás e me olhava. Soltava um sorriso, desses sorrisos de boca e de olho. O cabelo dela balançava, parecia ter vida própria quando Maria corria. Ela costumava andar descalça e ainda assim parecia limpa. Cheirava a baunilha e a verão, qual fosse a estação. Decidi naquele dia que Maria seria minha. Ela não falava alto, não encostava o cotovelo na mesa na hora da janta, não roía as unhas das mãos. Maria não dava conversinha nem sorria aquele sorriso dela para qualquer um. Maria parecia que era só minha. Se comportava nas festas, não tinha Tinder, nem ex-namorado Maria tinha. Ela tinha uma voz doce e cantarolava a canção da abertura da novela toda vez que tomava banho. Aqui fora, no nosso quarto, ainda hoje me encanto com a voz da Maria debaixo do chuveiro. Tão afinada é Maria.

23 novembro 2014

Daquela dança


Você se lembra do dia que a gente dançou aquela música? Você dizia que aquela música era nossa e eu não entendia. Mesmo assim, sempre que ouvia, me lembrava da tarde que a gente dançou junto. Você parecia tão leve, tão infantil, tão doce. Seu cabelo também cheirava a doce. Eu lembro porque eu queria morder ele todo, colocar cada fio na minha boca e sentir seu gosto como quem come algodão doce. Você se lembra do toque da minha mão, guiando você? Eu me lembro do toque da sua. Sua mão estava meio úmida e você me dizia que estava assim porque era dezembro. A gente dançou e eu acho que durou só cinco minutos. Mesmo assim, só me lembro daquela dança, quando ouço aquela música. Eu lembro que o dia estava agitado e quente; que você usava aquela blusinha de alça e o cabelo amarrado. Eu lembro que eu queria te rodar mais vezes, que é para o vento que se formava ao nosso redor nos refrescasse um pouco. Mas você se mantinha estática, como quem espera uma sinfonia de cordas começar. E você me olhava.

09 novembro 2014

Bicicleta


Fui eu que ensinei você a andar de bicicleta e a beijar na boca. Nada mais justo que você se apaixonasse mesmo por mim. Mas eu tenho tantos sonhos. Ainda hão de existir tantas bocas a quem eu possa ensinar a me beijar. Tantas bicicletas para montar. Eu vou andar por todas as ruas, olhando em todas as esquinas, procurando o mesmo olhar de curiosidade e surpresa que você me olha quando eu toco na sua pele com alguma novidade. Talvez quando eu me cansar de todas essas bocas e todas essas bicicletas, talvez aí eu volte para você.

Eu não sei como, exatamente, você vai estar; não sei nem se você vai me aceitar. Mas o que eu quero mesmo é que seja a sua vez de me surpreender e me ensinar coisas. Te deixo seguir adiante agora, para depois conhecer de novo você.

26 outubro 2014

A casa


Nossa casa vai ter um quintal gigantesco que é pra eu me deliciar com você de short, toda descabelada, pendurando as roupas das crianças nos varais. E vai ter goiabeira, e bananeira, e mangueira, e amoreira. Vai ter muita sombra no nosso quintal, mesmo em janeiro. As crianças vão correr e rolar no chão de mato capinado. O mesmo chão onde o nosso pastor alemão faz as sujeiras dele.

Na sala vai ter a minha poltrona, bem de frente para a TV, onde eu vou ficar fumando um cigarro depois da janta, ouvindo o homem do jornal contando as notícias. Do meu lado vai ter uma mesinha, que é pra você apoiar o copinho de licor de menta que você traz pra mim, pra ajudar minha digestão.

Nosso quarto vai ser um ninho. Teu cheiro espalhado pra todo lado. Teu gosto, tuas roupas, tuas joias. Eu só quero mesmo é deitar na nossa cama e ficar olhando você voltando do banheiro de camisola e touca na cabeça.

05 outubro 2014

Banda moderna


Nós estamos aqui, separados somente pelo ar úmido do verão que rodeia e envolve as extremidades dos nossos corpos. Passamos horas sem falar nada, um para o outro, só permanecemos deitados, de olhos abertos, lado a lado. Ouvimos as canções que tocam no rádio, enquanto o dia acaba no lado de fora da nossa casa. Você costuma sorrir para o teto e eu gosto de guardar esses momentos particulares, ainda que você nunca me diga por que sorri. Eu tenho a mania de ficar pensando mil coisas e analiso cada minuto que passo com você em tempo real, percebo quando você levanta a sobrancelha direita e quando pisca seus olhos mais vezes seguidas do que o normal. Uma banda ecoa em minha cabeça, uma dessas bandas modernas e alternativas, com pratos e violoncelos, e eu começo a imaginar como será quando ela tocar no nosso casamento. Você morde a parte interna da bochecha e faz aquelas coisas que você costuma fazer nessa altura do dia.

21 setembro 2014

Clássica


Eu sempre tinha sonhado com você assim. Você e sua maquiagem sempre perfeita. Quem sabe uma echarpe creme cuidando dos seus cabelos? Vai que eles se perdem no vento e ninguém mais te vê daquele jeito que você é. Eu queria você assim, de vestido preto, na altura do joelho, sorrindo despretensiosa. Ao mesmo tempo dama e prostituta. E ia beber uma taça de Martini e me olhar por baixo das sobrancelhas finas com olhos de excitada, como quem pede para que eu coloque logo as minhas mãos entre as suas pernas e a faça gozar. E toda manhã você acordava já meio cansada, com hálito de maçã verde e os olhos borrados, como uma mulher de outro tempo, do passado. E você tinha umas unhas longas, pintadas de vermelho, da mesma cor que o sapato de salto alto que você nunca tirava do pé. Trepava comigo calada e enfiava as unhas nas minhas costas, no mesmo ritmo que me beijava louca.

07 setembro 2014

Ela


Foi com ela que tive meus filhos e com ela que passei os dias mais lindos da minha vida. Foi por ela que trabalhei tanto tempo na repartição e por ela que esperava os sábados e as festas das nossas crianças. Foi ela que me fez ir à igreja e foi ela que me tirou o vício da cachaça. Foi por causa dela que cheguei em casa na hora certa e por causa dela que trouxe o buquê de flores. Foi ela que fez com que eu não visse mal algum em trazer flores, foi ela que tirou da minha boca o amor que eu tinha dentro de mim e nem sabia que existia. Foi ela que vi no jeito que minha filha andava e na letra do garoto quando entrava no ginásio. Foi dela que herdei as xícaras que hoje bebo meu café e era dela o perfume que se mantém intacto na minha cabeceira. Foi porque ela olhou para mim que eu sosseguei e foi porque ela me acompanhou que cheguei até aqui.

31 agosto 2014

Só


Onde você começa, eu termino. Não há fronteira entre nós. Somo gêmeos, nascidos do mesmo broto, com o mesmo tom de voz, a mesma carcaça, o mesmo sabor. Somos mais do que complementares, somos o mesmo. Porque não há eu sem você, nem nunca houve. Somos isso para sempre e não sabemos ser de outra forma.

Não conheço pronome, a não ser os de primeira pessoa. Não sei com quem eu lido porque eu lido comigo mesmo. Somos idênticos dos pés a cabeça. Tanto que às vezes nos confundo. Somos a confusão de uma pessoa só e a sua simplicidade. Toco uma mão na outra e sinto sua pele, quente e macia.

É como o conforto de um inverno perdido em casa. É como uma noite de sono bem dormida, trancados. É como um corpo feito de mim e de você.

27 junho 2014

Pessoas rasas


Tem gente que não é tão profunda. Se é, não é profunda o suficiente pra encher um texto, um romance ou uma música barata. Às vezes acho que eu sou desses, que no fundo não tem nada dentro de mim. Que, por mais que eu floreie aqui, eu sei que eu termino na altura do joelho. Demoro a aceitar essa realidade. Insisto que sou especial. Escrevo meia dúzia de palavras. No fim do dia, não existe nada que me satisfaça mais do que me ver escrito. Mas quando eu me olho no espelho e me vejo vivo, dá até uma tristeza, daquelas tristezas meio frustradas. Ou é o meu reflexo ou é o mês de maio que está chegando. Sempre fico meio triste quando chega maio e nem é porque eu me lembro de ninguém. Porque eu não me lembro mesmo. E isso é coisa de gente rasa. Nada me faz lembrar nada. Nem o mês de maio chegando. Nada me desperta tristeza nem alegria. Eu continuo olhando os dias passarem, sorrio e fecho os olhos na hora de dormir. E quando eu sonho, se naquela noite eu tiver esse privilégio, quero sonhar com esse monte de sentimentos que não tenho, com essas histórias que eu conto uma atrás da outra. Queria sonhar com o rosto que eu não lembro, mas que fosse aquele rosto que dá calafrio, sabe? Esses calafrios que começam no estômago. Queria sonhar com isso.

23 junho 2014

Antes de dormir


Tem dias que eu tenho pensamentos estranhos pouco antes de dormir. Eu planejo a subida até o penúltimo andar do prédio em que trabalho e depois me jogo de uma das varandas. Por algum motivo sempre estou de camisa amarela.

Depois eu fico imaginando as pessoas que mais amo, sofrendo silenciosamente no meu funeral, aquelas pessoas para quem hoje em dia me pego mendigando afeto. Então me lembro de que na minha família ninguém até hoje teve funeral. O que faria de mim o primeiro?


Algumas vezes peço para Deus afastar de mim esses pensamentos. Digo para mim mesmo que tenho que pensar positivo, que uma hora essa fase passa. Só não sei direito se vou estar vivo quando essa fase passar.

20 junho 2014

Ainda não fiz 40


Ainda não fiz quarenta mas pareço um velho. Daqueles que se lembram de quando não existiam as prestações da casa e do carro. Que sentam na beira da praia e passam horas com um desconhecido contando as aventuras dos vinte anos em tantas noites que essa cidade proporciona. Hoje em dia passo a noite sentado vendo os meninos andando pra lá e pra cá atrás de sexo segurando um drink colorido.

Ainda não fiz quarenta mas tenho um monte de dor nas pernas e incontinência urinária. Algumas vezes fica impossível não passar vergonha na frente da possível transa da noite. Na maioria das vezes, nem tenho disposição pra procurar a tal transa e volto de mãos abanando sozinho dizendo que o que eu queria mesmo quando deixei minha casa era uma boa noite de bebedeira com os meus amigos e só.

Ainda nem fiz 40 mas não fico mais bêbado. Não importa o que eu bote pra dentro. Gasto toda a grana que eu poderia gastar naquele mês em uma noite e fumo todo cigarro que a venda dali debaixo oferece mas acordo com os olhos de quem dormiu o sono dos justos.

Não que eu não tenha dormido. Ah, eu durmo. Acho que não fico sem dormir há mais de três anos. É quase religioso. Mas é que dá uma vergonha quando me olho no espelho e vejo toda a minha juventude descendo pelas rugas que o tempo vai trazer pro meu pescoço. 

18 junho 2014

Quem eu era


Hoje nem sem mais quem eu era. Quando eu pego pra ler o que escrevia há uns anos atrás, leio outra pessoa. Qualquer um menos eu. É engraçado ver como você era há uns cinco ou quatro anos atrás. Daquele lá eu invejo a pureza, as palavras saíam tão reais, tão genuínas. É estranho se ver de fora no futuro. Às vezes dá até vergonha do tanto de coisa que disse e que poderia ter ficado não dita. E o estilo então? Cheio de cafonices e parágrafos. Quando paro hoje para pensar nem sei pra que é que servem aqueles tantos parágrafos. Eu me abria sem pudor nenhum, sem vaidade. Tão louco ler aquele cara sem amor-próprio. Na verdade, nem sei se estou falando de amor-próprio mesmo. No fim das contas pode ser qualquer coisa. Eu só acho que não precisava falar de todo mundo que amei e invejei e com quem quis dormir. Tem coisa que não precisa falar, né? Dá um sentimento estranho ler esses textos nos quais eu falava coisas tão íntimas de pessoas que nem sentiam o mesmo que eu. Sei lá. Fico pensando se era melhor ser desse jeito e colocar pra fora tudo o que eu tenho aqui dentro numa de se esvaziar de tempos em tempos, ou se era melhor ter ficado calado que com o tempo passava. Eu olho aquele menino apaixonado que falava de si sem pudor nenhum e nem entendo de onde ele vem. Parece tão distante, tão romântico.

09 junho 2014

Não amo mais você


Acho que aconteceu mais ou menos assim. Um dia acordei e não te amava mais. Eu lembro porque no dia anterior achei engraçadinho quando você brincou com os meninos na varanda daqui de casa. Quando acordei, só não amava mais você. Mas a gente não fala esse tipo de coisa na hora do café da manhã. Talvez por isso tenha esperado por mais de treze anos pra te dizer. Eu não amo mais você e faz muito tempo que eu venho empurrando com a barriga. Estou repetindo várias vezes que é pra não sobrar dúvida. Nada mais em você me desperta um sentimento bom, nem perto daquilo que eu sentia quando a gente se casou. Não quer dizer que eu te odeie, espero que você entenda isso. Eu só não te amo mais. E tenho certeza que você sabia disso já. Só nunca tocou no assunto. Ninguém vive mais de treze anos com alguém que não te ama mais sem perceber nenhuma mudança. O que a gente faz agora eu não sei. A gente não deve ser o primeiro casal que passa por isso. 

02 junho 2014

Abraço


O que eu quero agora é um abraço, daqueles que não ganho desde os meus dezessete anos. Os abraços antigamente tinham cheiros de baunilha e laranja misturados e eram tão quentes e frequentes. Lembro de quase todos os que recebi desde então e nenhum deles fez com que eu me sentisse realmente abraçado. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando adormecido e não sente mais abraço de ninguém. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não é abraçado devidamente. Parece que eu me enfiei em um buraco sem corda de salvamento e sem abraço. Por mais que eu tente entender esse olhar de pena que um monte de gente lança em mim como se tivesse o mesmo conforto que os abraços dos meus dezessete anos, simplesmente não consigo. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando menos imaginativo. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não imagina devidamente.

30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez

23 maio 2014

Teresa


Teresa só pensa naquilo. Por aquilo leia-se pães de mel e dormir grudado sem roupa. Fui capaz de levar a situação o quanto pude até que me faltou força física. Muito antes já estava esgotado de ouvir seus gemidos e maquinar uma maneira de, na noite seguinte, controlar aquela mulher. Ela vivia dizendo o que queria. Um corpo colado ao seu durante toda a noite, acordar sendo beijada na parte interna da coxa, sentir perfume e suor nas primeiras e últimas horas do dia. Entre tudo isso, pedia por um caminhão de pães de mel. Implorava até. Seus dedinhos frágeis tremiam todos quando eu me deitava. Em menos de cinco minutos tamborilavam sobre minhas costas. Por muitas vezes ignorei até pegar no sono. E Teresa chorava ali do lado, se contorcia, não se segurava. Outras vezes cedi, mesmo a contragosto. Valia a pena por uma noite de sono bem dormida, sem as lamentações daquela alma perdida. E quando a encontrava, no fim do dia antes da janta, estava sempre com aquele olhar seco e vazio. O rosto sempre meio corado e a pele que ardia em febre. As unhas sujas de doce até que ela as lambia e pedia por mais.

19 maio 2014

Na sua cara



Troquei as minhas orgias pela masturbação há muitos anos atrás. Espero que vocês saibam disso ao lerem minhas memórias. Saibam que estou nesse momento infestado de doenças venéreas e que, enquanto assistimos a esses programas tolos na televisão, memorizo bem qualquer pedaço de pele e pelo que surge na tela para mais tarde me masturbar no banheiro daqui de casa.

Se não é possível ser feliz acompanhado nem em grupo, que eu seja então feliz sozinho. Ai daquele que me olhar com olhos tortos e imaginar que eu não passo de doente. Depender de sexo e um pouco de gozo não me torna pior que nenhum de vocês. E, se eu gosto da sensação que isso causa na minha pele e no meu intestino, isso tudo é problema meu.

Não me venham com aquele velho discurso moralista. É, você mesmo que trai e usa desodorante spray. Não tenho mais força para esse tipo de coisa. O que me resta é sentar com a perna meio aberta e imaginar um monte de línguas grudadas em mim. Talvez assim eu consiga sorrir pela manhã ao olhar o maldito ovo frio que descansa no meu prato.