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24 setembro 2010

Coisa de menininha


Querido diário,

Hoje descobri que encontrei um príncipe encantado. Ele não usava corrente de prata nem tinha o raciocínio atrofiado pelo abuso na musculação, diferente de todos os outros rapazes que encontro por aí. Ouvia MPB e estava se preparando para fazer vestibular esse ano. Ele, sim, é homem para apresentar aos meus pais. Encontrei, veja só, no chat da UOL. Conversamos por uns cinco minutos sob nossos nicknames safadinhos e depois trocamos MSN. Ao me adicionar, ele viu minha foto, perguntou minhas medidas e caiu. Desde então vivo com a preocupação em minha cabeça. O que será que acontecera ao meu príncipe encantado? Como será que anda sua conexão desde então? Hoje fazem cinco semanas que espero ansiosamente para ele ficar online no MSN, mas nada acontece. Toda vez que lembro da intensidade de nossa conversa tenho mais certeza que se trata de um amor encantado digno de conto de fadas. Faço preces para que o reencontre o quanto antes.

Espero sonhar com ele hoje à noite.

S2 Até a próxima S2

30 julho 2010

Pessoas que reclamam demais


- Boa noite.

- Boa noite.

- Diga seu nome e conte sua história.

Ele ficou um pouco constrangido com todas aquelas pessoas ao seu redor e começou.

- Me chamo Enjoado. Eu tenho 20 anos. Moro com minha mãe e irmã. Eu nem sei se tenho um problema mesmo, mas decidi vir aqui porque estava me sentindo triste desde o dia em que pararam de me ligar. De início, eu até achei bom. Eu sabia que não daria em nada mesmo. Até que bateu a carência, a depressão. Nessa hora, eu me apeguei nos meus amigos. Dizem que meus papos estão meio chatos, que eu só ando choramingando pelos cantos e pelas bordas, repetitivo. Eu juro que parei de falar disso. Juro. Meus amigos também pararam de me ligar, quase todos, e nunca mais me chamam pra noitadas porque eu sempre acabo bêbado mandando SMS pra qualquer um. De início, eu fiquei meio desesperado. Mas eu sabia que eu devia entrar no bate-papo da UOL e tudo melhoraria. Adicionei quatro pessoas que querem ver o que rola. Todas me bloquearam quando viram minha foto no MSN. Eu não quero reclamar, não. Mas às vezes parece que as coisas só dão errado comigo. Até ontem, eu tinha uma amiga. A única que tinha sobrado. A gente bebia, enchia a cara e terminava a noite com cara de choro, cheiro de cigarro e a boca toda engordurada da batata com calabresa ou do frango a passarinho que a gente dividia. Ela também parou de me ligar. Hoje à noite eu não tinha nada pra fazer. Nada. A não ser a garrafa de vinho, os nuggets na geladeira pra fritar e o episódio de Glee. É, o último. De repente notei que preciso de ajuda. Ainda há tempo pra mim?

15 março 2010

BestFriendsForever


Não brincaram de boneca quando eram pequenas. Elas nem se conheciam.

A que mora do lado da minha casa é filha de mãe solteira, criada pela babá que transava no sofá da sala vendo o programa do Gugu todo domingo. A mãe tinha uma profissão suspeita.

A outra é filha de militar, todo mundo soube quando elas começaram a ser amigas. Mais ou menos quando tinham 13 anos e esta começou a freqüentar a vila todos os dias. Agora ela namora com meu primo, de tanto que se envolveu com a vizinhança. Meu primo malha, mas não pensa.

De vez em quando eu ouço os gemidos dela e do meu primo, de tardinha em dias de semana. Eles transam loucamente e ele faz questão de contar com detalhes pra quem mora no fim da rua e não tem o privilégio de ouvir os sons.

A menina que mora do meu lado adora ele, porque ele é bobo e faz sua amiga feliz. Elas vão ao shopping, ao cinema e fazem noitadas juntas. Exceto as noites em que meu primo não se deixa ser enganado tão facilmente. Nessas ocasiões elas ficam na casa de uma ou de outra, conversando com rapazes sem rosto pelo chat da UOL.

Sempre fingem serem meninos homossexuais e ficam apreciando outros gays mostrarem seus pênis na webcam, num ato desesperado por arranjar um pouco de prazer em palavras de sacanagem. Usam sempre a foto do meu primo. Aquela que ele está sem camisa, de sunga, molhado, segurando a mangueira em jato numa mão e o pescoço do seu melhor amigo na outra.

O melhor amigo dele e ele são super grudados. Quase tanto quanto nós éramos antes de crescermos. Quase tanto quanto a menina que mora do lado da minha casa e a filha do militar. As duas jovenzinhas saudáveis que insistem em conhecer e zombar de estranhas bolas na tela do notebook.

Entre um MACHO_ATV e um boladãodavn23cm, elas tomam doses de vodka Absolut com o que tiver na geladeira. De uma ou de outra. Às vezes era Laranja Caseira, outras Pepsi sem gás ou Lemon Light.

Quando o álcool já era sentido de longe e elas ficavam com aquele cheiro na pele suada, uma parecia atrair a outra. Coincidentemente, era quando a garrafa já estava vazia. Elas se beijavam na boca, até tirarem suas roupas. Enquanto isso, meu primo malhava os tríceps.

Quando já tinham tirado suas roupas, beijavam o resto do corpo. Como quem quer tomar o resto de Absolut Vanilla que transpira dos poros bronzeados. Elas iam à praia semana sim e semana não. E nessas ocasiões flertavam com os coroas acompanhados enquanto se besuntavam de óleos bronzeadores de cenoura e de bronze.

Coroas adoram meninas flambando. Elas adoravam ser adoradas. E entre uma adoração e outra, namoravam escondidas. Principalmente quando já tinham bebido o suficiente pra fingirem que não se lembravam. Mas elas lembravam daquele dia, era final do Campeonato Carioca e o meu primo não deixou elas irem pro Leblon comemorar a vitória.