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02 abril 2011

Virada



A cidade estava fervendo. Pessoas viravam a noite como quem vira a esquina, sorrindo, uma garrafa de cachaça em uma mão e na outra sua garota. A sobrancelha sempre alerta, afinal era noite carioca.

O outro só voltava do cinema, Alice no País das Maravilhas. Metrô da Carioca, na noite carioca. Lamentava-se o que andava perdendo. Lamentava a noite que viravam lá fora. Enquanto ele só voltava com sonhos infantis na mente e um bocado de doces de cinema de domingo à noite.

O que era aquilo que sentia? Era arrependimento? Era vergonha? Estava se tornando mais puritano do que insistiam em dizer que era? Ou era só o fato de ter chupado uma pessoa num vagão vazio de metrô que era uma idéia repugnante para qualquer ser humano?

Colocou o fone no ouvido, ligou em qualquer música do George Michael como aquelas felizes coincidências que te faz dar uma gargalhadinha silenciosa. Escutou enquanto não chegava a sua estação. Enquanto lá fora a noite virava.

30 março 2011

Visagista



Conversaram no chat da UOL por mais ou menos quarenta minutos. Marcaram um encontro no Mc Donald’s do Largo do Machado. Foi de bermuda bege, tênis branco e pólo azul clarinha. No rosto estampado o medo de encontrar o novo, o desconhecido, o sem-dimensão.

E lá estava, de sandália de couro, óculos escuros e algumas pulseiras alternativas no pulso direito. A barba por fazer, o cabelo de um loiro natural, ondulado, nem grande, nem pequeno. Parecendo meticulosamente fora de corte. Cheirava a quarto limpo.

Propôs deixar o lanche pra uma próxima vez e, ao invés disso, conhecer sua casa. Andaram até depois do viaduto e entraram na rua ladeada de árvores e casinhas residenciais. Morava num prédio modesto e tinha aquela cachorra. Vira-lata de mais ou menos cinco anos, presente de um outro amor. Famosa Odete.

Conversaram, beberam, fumaram. Beijaram-se, despiram-se, deitaram-se. Quando viu, sua pólo estava jogada no chão, entre a chapinha da garrafa de cerveja e o cinzeiro cheio de fumo velho e seco. A bermuda no pé da cama e seu corpo jogado ao léu.

Estava ali, entregue ao estranho, ao desconhecido, ao sem-dimensão. Repentinamente, quase tão repentino quanto aquele encontro em si, levantou-se e vestiu-se. Saiu, dando um adeus nem um pouco carinhoso a Odete.

Ainda hoje, quando passa pelo Largo do Machado lembra daquela conversa despretensiosa, aprendendo o que faz um visagista. Lembra de pensar que não passava de um maquiador e cabeleireiro que não gostava de se assumir maquiador e cabeleireiro. Ele enchia boca e dizia que construía a imagem do personagem, enquanto o outro estava ali, só tentando se construir.

27 março 2011

Niterói



Atravessando a ponte tem alguém que me espera. De sorriso aberto, aquele sorriso quase riso, e a careca bronzeada e lustrada, daquelas que cheiram a menta fresca e verão na Região dos Lagos. E só é isso o que nos separa. Nem dá pra contar a distância. As horas passam sem serem vistas. E lá está você, com os braços abertos e cheios de histórias para contar. Só de te imaginar, do outro lado, bem do alto, já sou tomado pela cor laranja. A mesma com que você se revela a mim, pouco a pouco.

Eu esqueço que ando triste, quando ouço sua voz e rio junto com você. Aquele riso alto, entrecortado por piadas de efeito. Eu nunca tive vocação para piadas de efeito. Eu sempre admirei suas piadas. E ri, o que é mais importante. Contando com o dia em que, finalmente, irei ultrapassar a ponte.

Ligando você a mim, a fim de nunca mais desligar. Tornando o mundo ainda mais laranja e preservando o clima frio que era seu preferido. Coisas do lado de lá da ponte.

24 março 2011

Vida sem-graça



Ele era bonito e tinha os cabelos sempre cortados como quem imita um pouco de Elvis Presley e um outro pouco de Prince nos anos 80. Mantinha-os sob o efeito do gel e o sorriso sempre branquíssimo. Morava isolado da cidade e trabalhava no escritório de casa. Perto do banheiro e da cozinha, como constatara naquele dia em que mediu com o antigo namorado, em meio a carinhos e risadas geradas por consumo de jujubas azuis.

Era advogado e freqüentava lugares onde era obrigado a estar de terno, como a corte e o açougue onde crescera comprando. Conversava com meninos de vinte anos na internet e os fazia acreditar que eles eram importantes. Era um ótimo ouvinte, perfeito com piadas despretensiosas e especialista em goiabada cascão.

Gay convicto, solteiro há oito meses, viúvo há dois anos de um casamento que também durou dois anos. Pai de um menino de cinco anos. O menino era bonito e tinha os cabelos sempre cortados como quem imita um pouco de Elvis e um outro pouco de Prince nos anos 80.

21 março 2011

O polvo



Um braço, dois braços, seis braços. Entrelaçados, amanhecidos. Abertos e envoltos, uns nos outros. Carinhos repetitivos e gozos mais que esperados. Porque nada como uma cara que estampa o gozo, nem que para isso seja o gozo do outro.

Uma perna, duas pernas, seis pernas. Pêlos e creme hidratante se misturam. Tudo compondo a valsa que deve tocar até as duas da manhã. Esticadas ou comprimidas, dependendo da sensação que o sorvete de cupuaçu causa em cada um.

É isósceles, equilátero. Forma a forma que se deseja formar. É de uma mágica sem conhecimento, daquelas que não se precisa estudar. A uns, incompreensível. A outros, café da manhã.

18 março 2011

A fase turbulenta



Na fase turbulenta, acordar era uma honra. Saía toda noite sem saber como voltaria. Naquela voltou sem um pedaço. O mesmo pedaço que deixou no chão do banheiro da boate. Porque, não sejam puritanos, isso acontece. Você às vezes entra no banheiro, já alcoolizado, afinal assim é a noite, e sai com uma parte esquecida. Normalmente todo esse movimento é acompanhado da entrada de mais alguém. De preferência alguém sem nome, com roupa de bartender e cheirando a perfume importado. Tem os braços fortes, o sorriso marcado por uma expressão de quem já passa dos trinta. A pele morena e o cabelo bem baixinho. As unhas são daquele formato quadrado, pertencente àquelas mãos que, como um todo, são quadradas. É essa pessoa que te arranca um pedaço. Às vezes dói, mas você está tão alcoolizado que nem lembra. Você só se mantém na sua posição, faz o que deve fazer e aproveita, porque é assim que as pessoas com menos de vinte anos fazem. Não trocam telefone, pois não há onde anotar num banheiro de boate. Depois que a parte é arrancada, em meio a gemidos e esquecimentos, você sai, arrumando a roupa e rosto. Achando graça de tudo aquilo.

No dia seguinte, você pode até pensar no que aconteceu. Não por mais de cinco minutos. Não sem um sorriso maroto estampado no rosto. Afinal de contas, é sua fase turbulenta. É isso que as pessoas costumam fazer nas delas.

15 março 2011

Iniciação

Não lembrava a última vez que fizera sexo. De uma coisa sabia, nunca tinha conhecido ninguém daquela forma. Só notou isso quando já estava comendo a comida, deitado no chão de madeira e rezando pra noite chegar.

Naquela época não sabia beber e nem sonhava em fumar. Usava ainda perfume importado e alimentava o sonho de um namoro feliz. Falava mais fino e ria mais. Pra todo mundo, ria, como qualquer menino inseguro que precisa de segurança. E ela estava lá, jogada atrás daqueles sorrisos, clamando por liberdade.



Nunca dissera em alto e bom tom, até aquele momento. Nunca havia saído de casa sozinho, sem responsáveis. Era uma sensação de responsabilidade. Nunca conhecera pessoas estranhas, nem beijos com elas tinha trocado. Até aquela noite assistindo desenho animado.

De sexo não sabia quase nada. Só que era algo importante, que devia ser feito com pessoas importantes. Mas a sede pelo sexo tinha igual importância. Até aquela noite, talvez tivesse sido alguém romântico, que só sonha com contos de fadas. Mas quando pediu excitado pelo gozo, revirando os olhos, soube que não era o mesmo.

Adormeceu nos braços de um desconhecido. O mesmo para quem se entregara. Mas o que é que tinha entregado mesmo? Nada senão seu sexo e sua vontade de gozar. Havia carinho brotando ali, por entre os fios de cabelos escassos. Até a luz do sol acordar o dia e vir de encontro com os barulhos rotineiros que vinham do lado de lá.

13 março 2011

Caio

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.
(...)



Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

(...)

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Caio Fernando Abreu

10 março 2011

Por favor

Eu sei que você quer ficar com outros. Na verdade, acho que você tem todo o direito, mas continua ficando comigo? Por favor? E olha que eu estou pedindo por favor. Não se nega um pedido com por favor. Afinal de contas, por favor torna qualquer pedido comum um pedido implorado. Uma necessidade. E que vergonha eu tenho de dizer que, nesse momento, necessito de você? Não há vergonha que eu tenha ao ponto de suportar mais séculos de solidão. É que eu preciso estar acompanhado e não tenho mais disposição. Então será você, com ou sem favor. Por favor? Basta me olhar de esguelha e tocar meu corpo de tempos em tempos. Basta me beijar e retornar minhas ligações. Basta não sentir nojo de mim. Você não tem nojo de mim, tem? Basta não me contar que tem. É só estar ao meu lado, por favor... é desse jeito que eu peço, como minha mãe ensinou. E você tem de atender, afinal é só um favor. E você vive fazendo favores. É um favor para mim, ficar comigo, continuar a me namorar. Eu já disse, você pode ver outras pessoas. Me dá a chance de te mostrar que a gente pode dar certo, de que não há ninguém como eu. Porque ninguém vai pedir por favor. Ninguém.

03 março 2011

Cachorro-quente Party



Ele não estava acostumado com esse tipo de convite. Onda já se viu? Chamar assim, na lata, vamos comer cachorro-quente em grupo? Não. Comer cachorro-quente é algo sério. Não se come assim, em grupo. Três é até permitido. Mais que isso é, como dizia sua mãe, pouca vergonha. Ele ainda tinha vergonha e guardava o cachorro-quente para ocasiões entre quatro paredes. Duas pessoas, molho de ervas e nada mais. Ainda que sentisse vontade de repartir em mais pedaços, nascia dentro de si um sentimento de puritanismo que azedava o cachorro-quente. Era como quem diz: “você não vai gostar do gosto que tem” ainda que a cara só lhe fizesse lembrar das tantas vezes que comera cachorro-quente a dois.

Negou o convite, encostou a cabeça no travesseiro e sonhou com cachorros-quentes. Eles estavam em travessas, num quarto cheio de rapazes malhados, suados e de regatas. Não entendia o porquê das regatas. No fundo tocava uma música da Rihanna e a umidade do ar aos poucos se condensava na superfície gelada do vidro fumê que rodeava-os. Alguns dançavam, outros se deliciavam com cachorro-quente. De lingüiça e de salsicha, como se a diversidade fosse o que importava. A diversidade e a liberdade.