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29 junho 2011

Cotidiano


Acorda às duas da tarde, liga o computador e consulta seus perfis nas redes sociais que faz parte. Levanta depois de uma hora mais ou menos, sem escovar os dentes e entregue à claridade da tela do computador. As janelas do quarto fechadas, a luz intensa do sol barrada, a temperatura alta. Porta trancada, roupas jogadas no chão. Ao sair do quarto, empurra uma calça jeans um pouco para a esquerda para poder abrir a porta e vai ao banheiro. A casa vazia, o corredor com aquela claridade típica dos dias de janeiro no Rio de Janeiro. A janela na sala fechada, a TV da sala desligada. Entra no banheiro, abre a torneira e deixa a água rolar. Se olha no espelho por uns dois minutos, enquanto escuta a água cair da torneira e bater contra o metal do ralo do lavatório. Continuamente. Depois abre o armário por trás do espelho e tira sua escova de dentes e o creme dental. Prepara o ritual e senta no vaso. Escova os dentes por sete a dez minutos, ainda ouvindo a torneira aberta. Ao fim, lava o rosto, fecha a bica e mija. Dá descarga, lava a mão e volta ao quarto. Senta novamente em sua cama, coloca o computador na coxa e se entrega a mais algumas horas.

02 junho 2010

Médico


Médico formado pela Universidade Federal, alto, forte procura para relacionamento aberto, do tipo “venha na minha casa, coma um strogonoff de frango ou de camarão – caso você não seja alérgico também – e transe comigo um pouco”.

A comida fica por minha conta, disso eu me asseguro. Você só precisa trazer o “Sim” e o sorriso infantil. Também cuido da sua saúde se for o caso e aquela piadinha de “brincar de médico” vai ser cuidadosamente evitada. Questões de ética de trabalho.

Eu estava acostumado a ligar uma vez por semana, sempre às quintas-feiras, por volta das oito ou oito e meia. Bolava um plano sobre como nos encontraríamos e transávamos umas duas horas. Depois disso era hora de ir pra casa, pra faculdade ou pra Avenida Atlântica comer pipoca de madrugada.

Sou limpo, cabelo cortado e a unha também. Se você não for assim também, não adianta ligar porque não vai rolar. Podemos construir uma relação sem cobranças, sem compromissos, nos veríamos quando quiséssemos e quando eu estivesse de folga.

Você não me conta sobre a sua semana, nem pergunta sobre a minha. Podemos falar sobre doenças de idosos, premiações da música internacional ou sobre o último jogo de futebol. Moro em Copacabana, quase no Arpoador.

Não trocamos cumprimentos calorosos, que é pra manter a distância e a discrição. Você dorme na sua cama e eu na minha. Aviso de antemão que isso é essencial para o desenvolvimento do relacionamento ou desse lance que vamos ter. Não falo e não gosto de quem fala lance.

E quando você cansar de mim, simplesmente responda às minhas perguntas. Principalmente se eu lhe perguntar se você está me enrolando. Não gosto de ser enrolado, tenho muito trabalho a fazer durante a semana e gosto de relaxar na minha folga.

Quinta-feira estou disponível. Me procure no Barra D’Or. Se você está interessado entre em contato por email, telefone, Twitter, Facebook, Formspring ou MSN. Simplesmente entre em contato.

26 maio 2010

Perfil Fake no Orkut


E daí que o Garoto namora o Perfil Fake no Orkut? Eles trocam recados, marcam-se em fotos, e roubam um a senha do outro pra escrever, no status ou em qualquer outra lacuna que o Google disponibiliza, que se amam.

E se eles se amam também não é problema nosso. Hoje em dia existe amor de todas as maneiras. Uma vez me disseram isso e eu acreditei piamente. O que importa é o amor, esse é o mundo moderno.

Perfil Fake no Orkut grita aos quatro ventos e aos outros também que o Garoto é a melhor coisa que já lhe aconteceu. Que depois dele o mundo se tornou melhor e todas aquelas lamentações que só os apaixonados no Orkut sabem o que significa.

As pessoas se perguntam o que Garoto vê em Perfil Fake no Orkut. Garoto teria chances de conseguir quem quisesse na fila de qualquer boate que enfrentasse. Ele iria entrar, beber, dançar e se enroscar com qualquer pessoa lá dentro. Mas por algum motivo ele prefere Perfil Fake no Orkut. Ele prefere entrar à noite na internet, logar no Orkut e inventar palavras para que o amor deles tenha sentido. Ele prefere preencher as lacunas de Perfil Fake no Orkut a ter suas próprias lacunas esvaziadas pelas filas de boates.

09 maio 2010

Mãe


Ela só sabe fritar nugget e jogar paciência no computador. Demora pra passar minhas roupas e pra lavar as pretas. Me perturba da hora que acordo à hora que eu vou dormir, mesmo que eu esteja trancado no meu quarto. Vê TV Fama todo dia por hobby, assim como todo o resto do seu dia, semana e mês. Tem preguiça de levantar pra acender a luz e quase nunca atende o telefone. Demora pra fazer uma comida boa, mas quando faz é a melhor de todas. Melhor até do que aquelas da minha tia que cozinha bem. Usa perfume fraco e não fede mesmo quando não usa desodorante. Ela simplesmente acha que todo mundo é assim e esquece de comprar o desodorante. Capricha no sal quando faz macarrão e economiza quando faz arroz. Por ela, faz feijão numa piscina pra só usar a panela de pressão uma vez a cada trimestre. Não vai ao médico porque toda doença é fase. Me liga de madrugada se eu não aviso que vou sair pra beber. Me atura no dia seguinte bêbado ou reclamando da dor de cabeça. E passa a blusa que eu quero na hora que eu vou sair. Ela sabe entrar em vários perfis do Twitter e tem Orkut ainda que eu insista em ignorar esse fato. É fã do Max, mas não me pergunte sobre isso porque eu não sei explicar. Ela me beija sem ter escovado os dentes e nem me avisa, descubro do pior jeito possível. Odeia minhas músicas, mas eu odeio as dela também. Calça chinelo no banho porque tem TOC. Viciada em computador, Friends e bala Halls azul. Come sempre um pedaço de pizza porque sabe como eu sou com pizza e com todas as outras comidas que engordam. Arruma minha cama quase todos os dias, pelo menos os dias que a cama está arrumada. Troca a minha roupa de cama quando ela já está fedendo, às vezes eu nem percebo. Compra o papel higiênico lá em casa e arruma os meus perfumes toda manhã entre às 10 e 11 da manhã.

13 abril 2010

Me adiciona ponto com


O nome dele me dizia que morávamos na mesma cidade. Veneza não poderia ser um sobrenome. Começava com Gus e terminava com tav. O que vinha pelo meio ninguém sabe ao certo. Talvez alguma canção do Elton John. Talvez um álbum inteiro dele e sua coleção de óculos. Restava a dúvida.

Outros perfis surgiram no meadiciona.com e me mostraram que estudávamos na mesma universidade, talvez tenhamos ido às mesmas festas de irmandades ou às mesmas festas de swing. Sim, tem gente que gosta de swing estando solteiro. Tem gente que pode entrar em swing estando solteiro. Na verdade, eu não sei nada sobre swing.

Frequentávamos os mesmos lugares e, quando não, eu descobria onde ele estava e ia atrás. Fazia amizade com seus amigos, bebia com todos eles e dava uma de “temos-humor”. Mas ele nunca me olhava.

Ele tinha tudo que devia ter. Era educado, antenado, bom gosto musical, ia ao cinema, cortava o cabelo com certa regularidade, bebia, morava perto, beijava na boca e usava roupa de marca. Ainda que não fossem minhas marcas favoritas.

Um belo dia descobri com antecedência onde ele estaria. Faltavam vinte dias. Tempo suficiente para eu emagrecer um pouco, mudar meu corte de cabelo e exercitar meu sotaque, para acentuá-lo. Ainda tinha que descobrir o que havia no meio do seu nome, para abordá-lo da maneira certa e com um assunto certo.

Achado o assunto, parti para o próximo passo, me fazer ser alguém. Atualizava meu Twitter a cada cinco minuto. Devia fazer alguma diferença. Retwittava o que ele twittava. Conjugava o verbo twittar em todos os tempos e conjugações possíveis nas três diferentes dimensões de Avatar. Estávamos em 2010.

Mas não era a mim que ele queria. Ele mencionava outra pessoa. Morava numa tal cidade chamada Campinas e também levava isso no nome. Campinas não podia ser sobrenome, era o que me dizia o Google Maps.

Tinha lhe mandado chocolates e as fotos mostravam isso. Outra pessoa mencionava os dois – Veneza e Campinas – perguntando se surgia um novo romance. Eu me perguntava: Por quê?

Campinas não morava perto, não gostava de cinema, nem de boa música. Campinas tinha sua página recheada de replies e os links lá eram de um verde fluorescente horrível, enquanto os textos eram rosa-pink. Campinas não cabia na nossa história. Não conhecia seus amigos de bar. Só os amigos de MSN.

Veneza disse que conversariam mais tarde, respondendo à pergunta se surgia ou não um namoro entre Veneza e Campinas. Esse que perguntou eu não sei de onde era. Mas era na África, isso eu sei. Isso eu sei.

18 março 2010

Onde falam várias línguas


Todas as vezes que subiam as escadas que levavam ao terraço, era para a mesma brincadeira. A culpa era da sua mãe, que não deixava que eles se fechassem no quarto com ar-condicionado. Nunca se soube se era medo de a conta de luz vir alta, ou medo de vir uma gravidez.

O terraço era o ambiente mais arejado da casa e eles tinham calor. Ela e o namorado transavam sempre por ali, encostados nas paredes, perto da churrasqueira ou ao lado da piscina de 2000 litros desmontada. Foi ali também que ela percebeu pela primeira vez os defeitos do namorado.

Por mais que ele se empenhasse, por mais que ele treinasse com a boca enfiada em um copo com água, ele nunca conseguia fazer os movimentos certos com a língua. Encostada na pele dela, a língua dele não sabia fazer nada.

Desde então eles passaram por um período de adaptação. Ela tentou se acostumar com o fato de ele não saber chupá-la, afinal ela o amava. Quando viu que era em vão tanta tentativa, partiu para o plano B, ensiná-lo. Ele tinha problemas de aprendizado, não tinha chegado ao primeiro ano do Ensino Médio. Isso é coisa que só se aprende lá pelos meados do segundo.

Desiludida, frustrada e decepcionada com o futuro reservado para ela, encontrou consolo nos braços de um contato do MSN. Sobre ele não sei nada além de que tinha o dobro de sua idade e que sabia chupar bem.

O próximo estava começando a faculdade, falava alemão e também sabia fazer o que seu namorado não sabia. E os dois ou três seguintes. Todos tinham em comum o fato de saberem o exato e sincronizado movimento da língua, enquanto se encurvavam na altura da virilha dela.

Ela gemia de prazer com outros enquanto o namorado comia Doritos deitado no sofá da sala, vendo clipes dos anos 80. Logo depois subiam as escadas para o terraço e continuavam fazendo o que sempre faziam. Ele gozava, ela se vestia e sua mãe nunca os surpreendia. Ela lamentava isso.

Mas terminar com ele seria ainda pior do que a falta de um sexo oral bem feito com a pessoa amada. Afinal, ela continuava recebendo um sexo oral de desconhecidos que faziam rodízio. Tornou-se poliglota.

15 março 2010

BestFriendsForever


Não brincaram de boneca quando eram pequenas. Elas nem se conheciam.

A que mora do lado da minha casa é filha de mãe solteira, criada pela babá que transava no sofá da sala vendo o programa do Gugu todo domingo. A mãe tinha uma profissão suspeita.

A outra é filha de militar, todo mundo soube quando elas começaram a ser amigas. Mais ou menos quando tinham 13 anos e esta começou a freqüentar a vila todos os dias. Agora ela namora com meu primo, de tanto que se envolveu com a vizinhança. Meu primo malha, mas não pensa.

De vez em quando eu ouço os gemidos dela e do meu primo, de tardinha em dias de semana. Eles transam loucamente e ele faz questão de contar com detalhes pra quem mora no fim da rua e não tem o privilégio de ouvir os sons.

A menina que mora do meu lado adora ele, porque ele é bobo e faz sua amiga feliz. Elas vão ao shopping, ao cinema e fazem noitadas juntas. Exceto as noites em que meu primo não se deixa ser enganado tão facilmente. Nessas ocasiões elas ficam na casa de uma ou de outra, conversando com rapazes sem rosto pelo chat da UOL.

Sempre fingem serem meninos homossexuais e ficam apreciando outros gays mostrarem seus pênis na webcam, num ato desesperado por arranjar um pouco de prazer em palavras de sacanagem. Usam sempre a foto do meu primo. Aquela que ele está sem camisa, de sunga, molhado, segurando a mangueira em jato numa mão e o pescoço do seu melhor amigo na outra.

O melhor amigo dele e ele são super grudados. Quase tanto quanto nós éramos antes de crescermos. Quase tanto quanto a menina que mora do lado da minha casa e a filha do militar. As duas jovenzinhas saudáveis que insistem em conhecer e zombar de estranhas bolas na tela do notebook.

Entre um MACHO_ATV e um boladãodavn23cm, elas tomam doses de vodka Absolut com o que tiver na geladeira. De uma ou de outra. Às vezes era Laranja Caseira, outras Pepsi sem gás ou Lemon Light.

Quando o álcool já era sentido de longe e elas ficavam com aquele cheiro na pele suada, uma parecia atrair a outra. Coincidentemente, era quando a garrafa já estava vazia. Elas se beijavam na boca, até tirarem suas roupas. Enquanto isso, meu primo malhava os tríceps.

Quando já tinham tirado suas roupas, beijavam o resto do corpo. Como quem quer tomar o resto de Absolut Vanilla que transpira dos poros bronzeados. Elas iam à praia semana sim e semana não. E nessas ocasiões flertavam com os coroas acompanhados enquanto se besuntavam de óleos bronzeadores de cenoura e de bronze.

Coroas adoram meninas flambando. Elas adoravam ser adoradas. E entre uma adoração e outra, namoravam escondidas. Principalmente quando já tinham bebido o suficiente pra fingirem que não se lembravam. Mas elas lembravam daquele dia, era final do Campeonato Carioca e o meu primo não deixou elas irem pro Leblon comemorar a vitória.