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27 junho 2014

Pessoas rasas


Tem gente que não é tão profunda. Se é, não é profunda o suficiente pra encher um texto, um romance ou uma música barata. Às vezes acho que eu sou desses, que no fundo não tem nada dentro de mim. Que, por mais que eu floreie aqui, eu sei que eu termino na altura do joelho. Demoro a aceitar essa realidade. Insisto que sou especial. Escrevo meia dúzia de palavras. No fim do dia, não existe nada que me satisfaça mais do que me ver escrito. Mas quando eu me olho no espelho e me vejo vivo, dá até uma tristeza, daquelas tristezas meio frustradas. Ou é o meu reflexo ou é o mês de maio que está chegando. Sempre fico meio triste quando chega maio e nem é porque eu me lembro de ninguém. Porque eu não me lembro mesmo. E isso é coisa de gente rasa. Nada me faz lembrar nada. Nem o mês de maio chegando. Nada me desperta tristeza nem alegria. Eu continuo olhando os dias passarem, sorrio e fecho os olhos na hora de dormir. E quando eu sonho, se naquela noite eu tiver esse privilégio, quero sonhar com esse monte de sentimentos que não tenho, com essas histórias que eu conto uma atrás da outra. Queria sonhar com o rosto que eu não lembro, mas que fosse aquele rosto que dá calafrio, sabe? Esses calafrios que começam no estômago. Queria sonhar com isso.

06 junho 2014

Dostoiévski


Eu tinha tanto pela frente. Tenho certeza disso toda vez que penso no assunto. Ainda que a minha vida tenha sido um monte de momentos de solidão e sexo desvairado, gosto de acreditar que eu tinha o potencial para ser aquilo que sempre achei que ia ser. Não quer dizer que eu seria o que a minha mãe sonhou. Pelo menos não completamente, mas também não é essa figura amarga e carrancuda que me olha no espelho do corredor. Me sinto cansada e negativa como uma personagem de Dostoiévski. Não era assim que eu imaginei que seria. Fiz planos de almoços felizes, da casa cheia de crianças e a gente bebendo vinho até bem velhinho, fumando nossos cigarros e falando de poesia. Talvez esse sonho seja só de um outro escritor. Talvez seja tão negativo quanto Dostoiévski. O que sei é que quando olho pra essa realidade estranha em que vivo, sinto a impotência que via nos olhos da minha mãe e das suas amigas. Fico imaginando se seus olhos hoje em dia também têm essa impotência, se você se sente incompleto porque não está ao meu lado.

18 setembro 2011

Fada madrinha


Nem vem me dizer que aconteceu comigo porque eu não vou acreditar. Pode cantar todas as canções disponíveis para o orçamento, pode fazer todos os movimentos pomposos que existirem entre o céu e a lama em que pisamos, você pode até não pisar em nada, flutuar. Eu não vou acreditar. E quando você me sorrir esse sorriso mágico e me virar na direção do meu futuro brilhante, eu vou duvidar ainda que sinta os grãos brilhantes descendo pelo meu corpo e minha roupa mudar, meu cabelo mudar, o tom da minha voz... Provavelmente, vou pensar que é só um resfriado, que são só sintomas de loucura, que é minha sorte miserável agindo de novo na minha vida. Não adianta me apressar porque eu não vou a lugar nenhum, nem vou notar que talvez esteja perdendo toda uma noite. Não me encha os olhos se for só por uma noite, se for só um sonho. E quando eu acordar não vai ter nada pra eu lembrar, a única peça que sobrou do sonho alguém fatalmente vai levar de mim. Talvez essa peça me faça falta. Ou quem sabe eu nunca venha realmente a tê-la. Então não me apareça no meio da noite, entre meus demônios e as estrelas, pra contar fábulas que não existem nem nos contos de fadas.