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26 outubro 2014

A casa


Nossa casa vai ter um quintal gigantesco que é pra eu me deliciar com você de short, toda descabelada, pendurando as roupas das crianças nos varais. E vai ter goiabeira, e bananeira, e mangueira, e amoreira. Vai ter muita sombra no nosso quintal, mesmo em janeiro. As crianças vão correr e rolar no chão de mato capinado. O mesmo chão onde o nosso pastor alemão faz as sujeiras dele.

Na sala vai ter a minha poltrona, bem de frente para a TV, onde eu vou ficar fumando um cigarro depois da janta, ouvindo o homem do jornal contando as notícias. Do meu lado vai ter uma mesinha, que é pra você apoiar o copinho de licor de menta que você traz pra mim, pra ajudar minha digestão.

Nosso quarto vai ser um ninho. Teu cheiro espalhado pra todo lado. Teu gosto, tuas roupas, tuas joias. Eu só quero mesmo é deitar na nossa cama e ficar olhando você voltando do banheiro de camisola e touca na cabeça.

19 outubro 2014

Night Club


Não durmo há oito meses porque tenho medo de fechar meus olhos e nunca mais me acostumar com as luzes fluorescentes que piscam na noite lá fora. Às vezes preciso de um descanso, mas tenho medo de parar para descansar e nunca mais me levantar. Eu vivo ouvindo as vozes estranhas e rindo sorrisos vazios para pessoas que não sabem se comunicar comigo. Pode ser que nem eu saiba me comunicar comigo hoje em dia. Culpa da falta de tempo, aquele tempo que eu usava para comer pão na chapa, beber café com leite e ler o jornal de domingo pela manhã. Agora eu não vejo o sol, porque estou trancada num quarto de motel com algum desconhecido. Espero que ele pague meu taxi na volta e que ele não peça para dividir a conta só porque eu bebi uma latinha de Pepsi do frigobar. Enquanto eu retoco a maquiagem, eu penso no sapato que vou usar na noite seguinte e no tipo de cara de paisagem que vou fazer durante a noite quando encontrar aquele cara com quem eu dormi num desses fins de festas e que nunca me retornou. Aquele até seria um bom namorado. Por ele, eu abriria mão das luzes das boates.

12 outubro 2014

Nota de despedida


Querido,

Desculpe por não esperar você acordar, mas é que tudo isso faz parte da minha rotina. Eu me fui assim, sem me despedir, para que você me esqueça e para que eu nem me lembre de você. Não quero me lembrar de como te amei mais do que a qualquer outro que amei ontem, da hora que acordei à hora que deixei você aí.

Aconselho você a tomar uma boa caneca de café e ajeitar as almofadas no sofá da sala. Só hoje, que é pra ver se faz com que você supere a solidão mais rápido. E vá trabalhar, vá ver outras pessoas, saia de casa nem que seja para comprar cigarro. Saia.


Quem sabe você não encontra outra pessoa por aí, no caminho de volta pra casa? Quem sabe essa pessoa não sou eu?

05 outubro 2014

Banda moderna


Nós estamos aqui, separados somente pelo ar úmido do verão que rodeia e envolve as extremidades dos nossos corpos. Passamos horas sem falar nada, um para o outro, só permanecemos deitados, de olhos abertos, lado a lado. Ouvimos as canções que tocam no rádio, enquanto o dia acaba no lado de fora da nossa casa. Você costuma sorrir para o teto e eu gosto de guardar esses momentos particulares, ainda que você nunca me diga por que sorri. Eu tenho a mania de ficar pensando mil coisas e analiso cada minuto que passo com você em tempo real, percebo quando você levanta a sobrancelha direita e quando pisca seus olhos mais vezes seguidas do que o normal. Uma banda ecoa em minha cabeça, uma dessas bandas modernas e alternativas, com pratos e violoncelos, e eu começo a imaginar como será quando ela tocar no nosso casamento. Você morde a parte interna da bochecha e faz aquelas coisas que você costuma fazer nessa altura do dia.

28 setembro 2014

Boêmio


Sonhava com você assim, meio malandro. Você falava arrastado e me trazia o cigarro aceso e um copo de conhaque. A gente ficava até tarde da noite olhando a vizinhança pela grade da nossa janela da sala. Quando você se cansava, pedia pra eu subir para o quarto e tirar toda a minha roupa. Queria você falando que me amava sem roupa e que não conseguia desgrudar os olhos de mim. Depois você subia bem devagarzinho, com um palito de dente enfiado na boca, fazendo um barulhinho irritante, mas eu adorava. Você cheirava à rua e aos bares que você ia, aqueles que eram sempre diferentes dos bares que você me levava. Pra mim, você tinha cheiro de cerveja e, quando caía em cima de mim e sujava a mim e ao lençol, deixava seu cheiro impregnado. Você sempre me olhava desafiador e gostava de mim porque eu estava sempre pronta. E eu adorava que você gostava de mim.

21 setembro 2014

Clássica


Eu sempre tinha sonhado com você assim. Você e sua maquiagem sempre perfeita. Quem sabe uma echarpe creme cuidando dos seus cabelos? Vai que eles se perdem no vento e ninguém mais te vê daquele jeito que você é. Eu queria você assim, de vestido preto, na altura do joelho, sorrindo despretensiosa. Ao mesmo tempo dama e prostituta. E ia beber uma taça de Martini e me olhar por baixo das sobrancelhas finas com olhos de excitada, como quem pede para que eu coloque logo as minhas mãos entre as suas pernas e a faça gozar. E toda manhã você acordava já meio cansada, com hálito de maçã verde e os olhos borrados, como uma mulher de outro tempo, do passado. E você tinha umas unhas longas, pintadas de vermelho, da mesma cor que o sapato de salto alto que você nunca tirava do pé. Trepava comigo calada e enfiava as unhas nas minhas costas, no mesmo ritmo que me beijava louca.

14 setembro 2014

As noites


E todas as noites me trouxeram aqui. Todas as músicas, todas as roupas, todos os lenços sujos. E eu nunca liguei realmente por estar sozinha porque eu me divertia com todos os que estavam comigo. Eu bebia, eu dançava, eu transava. Fazia tranças que atavam os meus cabelos aos de todos eles e, por isso, não nos separávamos nunca mais. Eram todas aquelas noites de cantoria e amor que faziam a minha felicidade. Era a voz do cantor do rádio, o sabor dos cigarros, o cheiro da multidão.

Eu nunca tive o que reclamar porque quando eu fechava os braços ao meu redor, pegava os corpos que dormiam espalhados em pé. A minha volta eram montanhas de roupas e sapatos, eram as noites de trovadores, eram os rastros. Passos de crianças que deixávamos nas areias para que soubéssemos voltar de onde tínhamos vindo. Era a doçura da juventude sem saber o quê ou o porquê.

07 setembro 2014

Ela


Foi com ela que tive meus filhos e com ela que passei os dias mais lindos da minha vida. Foi por ela que trabalhei tanto tempo na repartição e por ela que esperava os sábados e as festas das nossas crianças. Foi ela que me fez ir à igreja e foi ela que me tirou o vício da cachaça. Foi por causa dela que cheguei em casa na hora certa e por causa dela que trouxe o buquê de flores. Foi ela que fez com que eu não visse mal algum em trazer flores, foi ela que tirou da minha boca o amor que eu tinha dentro de mim e nem sabia que existia. Foi ela que vi no jeito que minha filha andava e na letra do garoto quando entrava no ginásio. Foi dela que herdei as xícaras que hoje bebo meu café e era dela o perfume que se mantém intacto na minha cabeceira. Foi porque ela olhou para mim que eu sosseguei e foi porque ela me acompanhou que cheguei até aqui.

31 agosto 2014

Só


Onde você começa, eu termino. Não há fronteira entre nós. Somo gêmeos, nascidos do mesmo broto, com o mesmo tom de voz, a mesma carcaça, o mesmo sabor. Somos mais do que complementares, somos o mesmo. Porque não há eu sem você, nem nunca houve. Somos isso para sempre e não sabemos ser de outra forma.

Não conheço pronome, a não ser os de primeira pessoa. Não sei com quem eu lido porque eu lido comigo mesmo. Somos idênticos dos pés a cabeça. Tanto que às vezes nos confundo. Somos a confusão de uma pessoa só e a sua simplicidade. Toco uma mão na outra e sinto sua pele, quente e macia.

É como o conforto de um inverno perdido em casa. É como uma noite de sono bem dormida, trancados. É como um corpo feito de mim e de você.

24 agosto 2014

Gargalhando


Ele sabia tudo o que eu pensava e tinha a mania de adivinhar minhas palavras, na frente dos nossos amigos, antes que eu as dissesse. Depois, quando lembrávamos desses momentos, nós dois na mesa do café da manhã de domingo, ríamos. Gargalhávamos por nada e adorávamos gargalhar. Às vezes eu sentia meus olhos úmidos de tanto rir e eu adorava essa sensação. Adorava também ver, a cada dia, um vinco novo no rosto dele e ele dizia que os vincos surgiam de tanto que nós ríamos. Eram dias de felicidade. Esse tipo de felicidade calma que a gente nunca percebe que existe, até que ela não existe mais. Quando eu pegava ele me olhando daquele jeito bobo, admirando o que eu fazia ou falava, eu o encarava. E quando ele via que eu estava encarando ele, com um sorriso torto na minha boca, caíamos na gargalhada de novo porque era o que a gente fazia melhor, rir. Gargalhar.

Se alguém me perguntasse que eu imaginaria ele, rindo comigo desse jeito, depois de tantos anos de adiamento, eu diria que era loucura, mas afinal essas coisas existem mesmo. Quando você percebe, você está rindo sem motivo e chorando de tanto rir. Gargalhando.