Ali do lado nos encontrávamos e, debaixo da cama de montar, dormíamos escondidos, beijando-nos. Éramos como irmãos incestuosos, sem camisas e com shorts de dormir. Era a cama, nosso forte, e a vergonha, nossos chapéus de caubói. E quando cansamos de sermos irmãos, viramos inimigos que vira-mexe encontram-se em ruas escusas e transam os corpos suados e estranhos. Cada vez descobrimos algo. Um pêlo, um braço, um coração. E quando chegamos bem perto, descobrimos que é para ali que andamos voltando. Ali do lado, onde fica aquele quarto todo azul, de cama sempre feita, deitávamos e nunca nos amassamos. Era uma coisa linda, eram dois dorsos verdes.
Hoje, da janela da minha sala, o que vejo é seu dorso bronzeado, suando no sol em abril, lavando um carro como você costumava lavar meus cabelos na pia do banheiro. Hoje, o que temos é nosso fraterno amor estranho, que não conhece os limites do corpo. Talvez nem saiba dar nome às partes.
