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28 maio 2014

Raiva


Eu morro de raiva quando vejo você rodeado de amigos, fazendo coisas legais. Parece até que eles não veem o quanto você é chato, sem-graça e previsível. Aí eu me lembro de uma máxima que eu li em algum lugar. Provavelmente num pacote de biscoitos recheados ou na caixa da pizza daqui do bairro. A máxima dizia justamente isso: “As pessoas nunca conseguem perceber quando alguém é chato, sem-graça e previsível”. Só então, consegui encostar a minha cabeça no travesseiro e dormir em paz. Sabendo que o problema não estava comigo, estava com todo o resto do mundinho em que eu vivo. Esse bando de gente chata, sem-graça e previsível que nunca entende as minhas piadas nem leem pacotes de biscoitos recheados e caixas de pizza. Apesar de ter dormido em paz, a raiva permanece aqui. Não sei se você entende como isso pode acontecer, mas acontece. É como se você terminasse a garrafa de uma bebida muito cara com amigos ou como se você assistisse o último episódio de uma série longa sozinho. E essa raiva não passa por nada. Eu durmo, acordo, tomo banho e meus moderadores de apetite e a raiva não me larga. Dou uma olhada de novo nas suas fotos, dou uma olhada nos seus amigos. Passo o dia trincando os dentes e roendo as unhas, ao mesmo tempo. No fim da noite engato nos mesmos pensamentos e sonho com um musical. Você desce escadas iluminadas cantando em plenos pulmões a máxima da minha caixa de pizza.

13 agosto 2011

O entediante


Sou um chato mesmo. Ele dizia isso entre os dentes, sentado na cadeira do computador, sem se virar e encarar os meus olhos. Um cigarro na sua mão, aos poucos acabando, sendo consumido a cada tragada. Na cabeça o próximo cigarro e o isqueiro que iria acendê-lo.

Um chato desses que fumam cigarros como se fumam em filmes europeus, que usam cabelos curtos e caras de quiabo mal preparado. Tomara que a força que faz para manter essa pose de quem assiste Godard seja suficiente para explodir sua cabeça.

Eu irei catar cada migalha e guardar numa caixinha cheia de rendas, que é porque eu nunca achei ele chato. Sempre me encantou o papo lento e desconhecido, o cigarro bem colocado entre os dedos e a voz pretensiosamente mais inteligente do que podia na verdade ser.

E, no fim, vamos rir de tudo isso e dos dias que fez calor aqui em casa. Dias regados a Coca-cola sem gás e cigarros importados. Porque só eu te entendo e só eu sou capaz de não te achar mais um.