O garoto que nunca viu um beijo gay ligou a televisão às seis da noite e só saiu da cadeira de vime que mantinha sobre o tapete verde, herdada do avô materno, às dez da noite. Terminava assim mais uma noite de um dia sem beijo gay.
Naquela noite em especial, deitou-se sem conseguir se concentrar no sono. Pensava em bocas por trás de barbas cerradas, pensava em atores globais e em militâncias na praia de Ipanema. Se revirava de um lado para o outro, listando os motivos, os prós e os contras de um beijo gay.
Quantas oportunidades já tivera, quantas desperdiçadas, fazendo com que a vida continuasse a mesma, dia após dia, noite após noite, novela após novela. Era como se o mundo abrigasse menos personagens de Seinfield em troca de um espaço para o Bob Esponja, aquele trapalhão.
Levantou-se da cama, foi até a sala e ajoelhou-se, perto do pôster daquela loira velha. Pediu com todas as forças que tinha nos músculos em desenvolvimento que Deus permitisse que amanhã fosse um dia melhor. Que finalmente Deus acabasse com esse tormento e colocasse o beijo gay em uma novela.
Não importava se era das seis, sete ou oito. Podia ser até no Big Brother, mas que o beijo gay existisse. Com ou sem língua. Que fosse entre dois homens ou entre duas mulheres. Tanto fazia, ele não se importava. Na verdade, poderia ser até entre um homem e uma mulher, mas que a mulher fosse muito masculina.
Pegou no sono ali mesmo, ajoelhado. Na manhã seguinte acordou com dor na coluna e na lombar, adorava a palavra lombar e mais ainda a lombar dolorida. Lá pelas cinco, sentou-se na mesma cadeira de vime, rezando para que o sacrifício tivesse valido a pena.
