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30 outubro 2011

Supernova


Explodiu bem aqui, na frente de seus olhos. Iluminando nossos céus com a luz de mil sóis gigantes, se fez presente. Durou uma eternidade aos que amam de verdade. E ainda existe para os que não amam. Surgiu do nada e criou a camada cósmica que nos protegeu de todos os males. Foi com a intensidade de um tapa na cara, de uma onda silenciosa, de uma noite lunar.

Arrepiou os pêlos do meu braço e possivelmente fez você senti-los , daí de onde você está. Fez da nossa galáxia algo tocável, só com a lâmina fina de radiação que jogou sobre a gente, eu e vocês. A pressão de nossos núcleos não foi suficiente, cedeu bem em frente a minha mão. Entrou em colapso intraestelar, não passa de um buraco negro.

Brilhou o quanto devia brilhar e ao apagar era o fim da supernova. Não passa de ar preenchido com o que, um dia, foi a luz de todas as estrelas. Traz a boca selada pelo invisível e os olhos abertos à espera da manhã. Quando a luz do sol iluminar de novo as calçadas nuas dessa nossa cidade, não haverá necessidade da luz que habitou o topo de nossas cabeças.

27 outubro 2011

A todas as causas perdidas


As causas perdidas que me desculpem, mas nunca vou me achar. Nunca vamos. Nós simplesmente já passamos e isso não é remediável. Nunca será. Deite-se na sua cama e sofra o que você perdeu, sofra tudo de uma vez que é pra não ter de escrever nunca sobre isso. As pessoas podem elogiar, no fim das contas. Mas no fim das contas mesmo, foi tudo o que você passou. Foi tudo o que você perdeu. Foi você se perdendo. Alguns diriam que foi você se achando. Tudo depende do ponto de vista. Se você é otimista ou se é viciado em beijinhos de coco.

As causas perdidas que me odeiem, mas eu não quero mais falar. Eu vim é pra me despedir, despido de qualquer roupa, sem qualquer um dos meus casos anotados nos papéis que carrego nas mãos. Se isso é tão inútil, por que insistir em perder? E por que rir? Porque assim é a vida? A gente ri, a gente ouve música e come em restaurantes caros, colecionando perdas pelo caminho e, assim, aumentando os ganhos?

Perder tempo é perder pessoas e as causas perdidas que acordem, não queremos perder pessoas. Já basta o tanto que somos perdidos. Se achar não é suficiente, nem desistir de procurar, talvez a busca em si esteja perdida e desse jeito o melhor é sacar uma taça de espumante e seguir adiante.

24 outubro 2011

Perseguindo


Eu persigo e fantasio com todos vocês. Já namorei alguns, transei com outros e até comi fondue assim, sem nem estar fazendo frio. Eu encontrei todos vocês em lugares e joguei meu charme, aquela coisa de olhar e depois desviar fingindo ser mais tímido do que sou. A gente já viajou junto e, na viagem, conhecemos um ao outro intensamente. Eu e todos vocês. Não pense que você escapa, você que parece nem ter importância. Ainda ontem de noite, nos imaginei na cama, conversando sobre televisão. Depois nós bebemos uma taça de vinho tinto para celebrar que já passavam das duas e que você me deu a chance. É o que a gente vai fazer, eu e qualquer um de vocês, no dia em que eu tiver a chance. Nós vamos deitar, transar, comer e beber. O lençol, o ombro, a fumaça do cigarro.

Ah, se eu te encontro ali na esquina. Ah, se você me sorri, como sorriu quando eu imaginei a gente dobrando a rua. Pode assustar, mas é só uma pobre alma correndo atrás de felicidades. É só a chance de cada um de vocês ser a felicidade. Até você, que franze a testa e pensa: quanta besteira!

21 outubro 2011

Indo em frente


Eu vou continuar vivo. Posso não estar aqui, mas estou certamente vivo. Porque a gente foi fetio pra viver. Eu vou olhar em frente e esperar pra ver o resto da rua por onde caminho, por onde tantos caminharam. Eu vou fazer as escolhas que outros já fizeram e outras originais. Pelo menos um pouco mais originais.

E se não for suficiente, só seguir em frente caminhando, vou descobrir no meio do caminho. Porque descobrir faz parte da caminhada. Sempre em frente. Eu vou bater de cara, eu vou sair dolorido, mas vou estar vivo. Faz parte dessa coisa de estar vivo, viver.

Quando o dia começar vou acordar e notar que mais um dia eu vivi. E só isso, sendo suficiente, me fará seguir em frente. Sentindo as vísceras existindo, os membros pulsando e a vida vivendo. Porque viver tem dessas coisas de ser feliz e triste. E se eu escolher ser triste, é porque é mais intenso. Com certeza é por isso.

Eu vou viver porque estou vivo. Ainda que eu não apareça, estou vivo. Ainda que não pareça, estou vivo. Ainda que eu feche os olhos quando todo mundo está abrindo, estou vivo.

Eu disse que você era especial, não único.

18 outubro 2011

Dentro da gente


Fica dentro da gente esse caminho que nos leva ao palpável. É quase invisível, mas fica aqui, iluminado por qualquer raio de sol que entra por nossos poros e fica pra sempre dentro da gente. Tem cheiro de manhã de maio e gosto de gota de chuva, dessas que a gente sente quando levanta a cabeça pra agradecer no fim do dia, no ponto de ônibus, na volta pra casa.

Fica dentro da gente o recado que recebemos constantemente do mensageiro da estação, dizendo que vem por aí um dia de flores jogadas na esquina entre a Visconde de Pirajá e a Maria Quitéria. Tudo isso só pra celebrar o que passou, mas dizem que ficou dentro da gente.

E se fica um resto de espaço pra contar, aproveita-se com um pouco mais de poesia, que é pra embalar o dia-dia desse resto que ficou aqui, dentro da gente.

15 outubro 2011

As merdas que já pisei


Eu já pedi desculpas pessoalmente e até não consegui esconder a cara de bobo que carregava no rosto. Já olhei nos seus olhos sinceramente e disse o quanto estava arrependido. E estava mesmo. Tinha vergonha de dizer que estava arrependido, mas estava. Faz parte dessa história de ser gente, se arrepender. E como sou gente, me arrependi. Chato foi tudo isso ter acontecido com você. Ou tudo isso aconteceu justamente com você porque, do contrário, teria sido ainda mais chato. Eu só preciso reafirmar, agora que tudo já passou que sinto muito. Que faz parte do passado, pra mim. Que espero que um dia faça parte do seu passado também. As pessoas não são perfeitas, as pessoas erram. Eu sou pessoa, eu errei. Eu me arrependi e isso é verdade. Não tô aqui criando, inventando, floreando. Não. Eu estou dizendo com todas as palavras que se pudesse voltar atrás e não ter dito tudo o que disse, não teria dito. Não é o que se espera de ninguém. Tão mais fácil aquele clichê imundo do “arrepender-se de ter feito é melhor do que arrepender-se de não ter feito”. Se eu pudesse, não teria feito. Se eu soubesse... se eu ao menos percebesse...

Eu vim dizer que errei, como eu já te disse cara-cara. Por mais que tenha sido desconfortável, eu precisava disso. Essa tal oportunidade pra me redimir. Nada de me justificar, porque essas coisas não têm justificativas. Era só pra te dizer que eu sentia muito. Que sinto. Porque você é sim importante pra mim. Porque eu realmente fiquei pensando no que tinha feito, no que eu tinha provocado em você, no que eu diria quando tivesse que te encarar.

12 outubro 2011

Eu sou


Eu sou e não adianta mais fingir. Vem sorrir do meu lado que é bem mais legal desse jeito, baby. Vem dar a mão pra mim pra gente ir sorrindo na cara de todo mundo por aí, enquanto desfilamos com o que somos, eu e você. Sou porque é o melhor jeito que encontrei de ser e o que me resta na verdade é rir de tudo isso, rezando pra que no fim você ria junto comigo desse jeito meio gargalhada, perdendo o fôlego e se afogando em alegria. Essa alegria que é da gente e que eu sou.

Sou um só que não se esconde, mas que também não precisa ser a todo momento. Sou isso de acordar e dormir e sorrir nos intervalos pelo simples motivo de ser. Sou essa mágica que as pessoas acham que não entendem, mas que vive na nossa cara todo dia. Sou esse truque de felicidade e de cores.

Vem ser comigo isso que eu sou, ainda que você não seja. Vem me acompanhar nessa estrada de tijolos amarelos, vem brincar de ciranda o resto do dia porque do jeito que sou, sou até verão. E gosto de ser, gosto de ter, gosto de ver.

09 outubro 2011

Noite dos meninos


Não se controlavam de tão eufóricos naquela noite. Tiraram as maquiagens de dentro dos armários, despiram-se de suas roupas de brechó e começaram a flertar com suas imagens refletidas no espelho do quarto.

Uns se equilibravam em cacos de vidro sujos de vinho que deixaram na noite anterior, outros se cortavam pouco a pouco num prazer estranho pela sensação de morrer.

De olhos contornados, braceletes exibidos e pés jogados para cima naquela cama leve como uma nuvem, os meninos disseram as palavras que guardavam em seus bolsos, nas jardineiras que outrora vestiam.

Orgasmo.
Skittles.
Cotonete.

E seguiram pela noite adentro embebedando-se e cruzando os dedos, uns com os outros, de modo que só se largavam quando o campo magnético que os unia fosse então desfeito. Tatuaram-se com o resto de coca-cola que sobrou da orgia da semana passada e se mostraram em câmeras escondidas debaixo do colchão de casal.

06 outubro 2011

Aquela festa na casa do Barney


Enquanto segurava meu copo de cerveja em uma mão e meus argumentos sobre o abuso da televisão em outra, olhava de rabo de olho para ter certeza que Barney estava me ouvindo, que pelo menos sabia que eu estava ali. Não adianta estar presente, é preciso ser notado, ser cheirado e ser comido. Enquanto ele não veio em minha direção e disse meia dúzia de palavras saltitantes não parei de beber, nem de fazer a cara de cool, aquela que guardo na porta da direita do meu armário de quinquilharias. Era só dar uma volta pela festa que vi que eu não era o único que tinha tirado do armário a cara de cool. Tantos jovens de camisas xadrez e Converse exibiam as suas. De todas as cores e formatos. Vi até uma que lembrava batata frita. Ou era isso ou era a minha cerveja fazendo efeito.

04 outubro 2011

Não te amo



Não pense que eu te amei ou que cheguei perto disso só porque escrevi sobre você. Não pense que escolhi sentir sua falta enquanto você está do meu lado. Eu simplesmente senti e escrevi sobre isso. Não pense que eu penso na noite em que nos sentimos em todas as outras noites da minha vida. Porque eu não penso. E isso é natural.

Natural como o amor que não sinto porque eu nem te conheço, ainda que vira-mexe tenha escrito cartas a você e publicado-as em meu diário. Ainda que eu tenha lhe dito para me ter, para me abraçar ou para só me abraçar, eu não te amo.

Não se iluda com meu amor, nem com a inocência dos meus olhos castanhos. Não há inocência que resista ao orgasmo, à cerveja, ao cigarro. Pode ser legal você contar para as pessoas que eu te amo, que escrevo sobre você, desde aquela noite há muito tempo atrás.

No fim das contas, nós dois sabemos que isso não existe. Eu só queria que você me abraçasse, que você me beijasse, que você me olhasse. Naquele momento, eu queria. E isso, definitivamente, não quer dizer que eu te amo.

03 outubro 2011

Alucinações


Se você olha nos meus olhos e realmente me vê, então você vê uma alucinação. Do contrário, você vê uma névoa no formato de um homem baixo e corcunda.

30 setembro 2011

Sorria


Porque acordei hoje com a nossa canção, sorri. Aquele sorriso frouxo com os olhos inchados por tanto ter chorado na noite anterior. Chorei de rir, isso sim, quando você me fazia cócegas e deitava sobre o meu corpo totalmente nu. Tomamos café da manhã juntos naquele dia e isso me fez rir o resto do dia, isso e o beijo que você me deu quando ia embora da minha casa com meu casaco, indo para o trabalho. Saí de casa às duas da tarde e só de ver a cor do sol sorri, olhando para o céu. Caminhei a calçada toda olhando para o céu, sorrindo para as cores que estavam por ali. E quando me cansei do passeio, quando senti saudades de você, voltei a sorrir. Lembrando da noite hilária que tínhamos tido, disquei seu número e esperei atender.

Sorri porque não sinto vontade de fazer outra coisa com a boca que não seja sorrir. Ou quem sabe beijar você até amanhecer, contando com a sorte de que a madrugada demore dessa vez mais tempo do que costuma demorar.

27 setembro 2011

E o resto do mundo


Que eles vão para o inferno, onde fede a banheiro de bar de frente de Universidade. Que explodam e que as merdas que irão resumi-los, no fim das contas, não atrapalhem quando passarmos com nossa parada desfilando nossa felicidade. Que chova na casa deles e que infiltre até pelos azulejos uma água ácida e escura. Que goteje sobre suas camas por volta das três da madrugada, bem na testa de todos eles. E que a água que tomam diariamente para matar a sede de tanto gesticularem com as línguas esteja seriamente contaminada com algum microrganismo altamente patológico, que lhes cause a doença da década, do século, do milênio. Que morram de fome depois de comerem os cantos dos dedos das mãos e dos pés. Que andem de mãos dadas com o diabo de suas vidas e que sejam esquecidos por todos os anjos. Que destruam suas vidas com adagas amaldiçoadas que guardaram por todos esses anos sobre o portal da entrada de suas casas. Que suas casas desabem sobre suas cabeças. Que desabem aos meus pés.

24 setembro 2011

Sobre nós

Aquele buquê que apodrece desde o dia do nosso casamento libera esse cheiro de morte pelo nosso quarto. O mesmo quarto onde nos amamos tantas vezes e onde vimos morrer esse amor que cheirava a begônias animadas.

O que sobrou foram nossos corpos, um de frente para o outro, olhando-se em silêncio, esperando a solução e respirando aquele ar carregado das pétalas daquele buquê. Nós dois entregues a nossa própria sorte, ainda que nossa sorte seja só a sorte dos miseráveis.

Fechamos os olhos e esperamos passar, mesmo sabendo que aquilo nunca passaria. Que o cheiro que penetra nossos narizes inteiros vem decomposto no que foi e no que não é mais. O que sobra são nossas mãos descansando sobre nossos joelhos, rezas silenciosas para que o cheiro alterado seja um sinal para nós, que somos dois desgraçados.

21 setembro 2011

Sobre você


Quem me segura pelo braço quando andamos em terrenos estranhos, pedras sem formatos definidos e areias movediças. Os pés que me apóiam por toda a nossa casa, os dois mil andares pelos quais gosto de andar de madrugada. O sorriso pequeno de quando pensamos a mesma coisa. A mão que encaracola os fios do meu cabelo claro, queimado pelo sol de agosto passado. A ponta da língua que tem as melhores palavras, nas melhores horas, nos melhores tons. Quem diz que me ama só porque eu peço, só por causa da minha insegurança infantil. Quem me espera sair de casa e sorrir, me entregando, só porque entende o fato de eu nem sempre me entregar. A boca dos meus últimos beijos e dos melhores. Os textos mais criativos, meus e seus. Quem se cala quando tudo o que eu preciso é falar. Quem me escuta. Que senta na cadeira de balanço e me admira até as oito da manhã seguinte, porque naquele dia fizemos aniversário de oito meses de namoro, ou nome qualquer que queiram dar a isso. Os dedos que me excitam quase todas as noites, até naquelas que chove granizo. Os selos guardados e colados nas nossas fotografias, aquele que sorri ao meu lado só por estar ao meu lado.

18 setembro 2011

Fada madrinha


Nem vem me dizer que aconteceu comigo porque eu não vou acreditar. Pode cantar todas as canções disponíveis para o orçamento, pode fazer todos os movimentos pomposos que existirem entre o céu e a lama em que pisamos, você pode até não pisar em nada, flutuar. Eu não vou acreditar. E quando você me sorrir esse sorriso mágico e me virar na direção do meu futuro brilhante, eu vou duvidar ainda que sinta os grãos brilhantes descendo pelo meu corpo e minha roupa mudar, meu cabelo mudar, o tom da minha voz... Provavelmente, vou pensar que é só um resfriado, que são só sintomas de loucura, que é minha sorte miserável agindo de novo na minha vida. Não adianta me apressar porque eu não vou a lugar nenhum, nem vou notar que talvez esteja perdendo toda uma noite. Não me encha os olhos se for só por uma noite, se for só um sonho. E quando eu acordar não vai ter nada pra eu lembrar, a única peça que sobrou do sonho alguém fatalmente vai levar de mim. Talvez essa peça me faça falta. Ou quem sabe eu nunca venha realmente a tê-la. Então não me apareça no meio da noite, entre meus demônios e as estrelas, pra contar fábulas que não existem nem nos contos de fadas.

15 setembro 2011

Freakness

Pegou na minha mão e saiu correndo por aí, na chuva. Gritava versos de Guimarães Rosa. “Se fosse só eu a chorar de amor, sorriria...”.

Pegou o casaco e a cartola. Ajeitou um em mim e outro em si próprio e seguiu, depois de alguns minutos correndo loucamente, a andar pela Avenida dos Aleijados.

 
Disse, no caminho, que não tinha muito que falar, que só queria andar ao meu lado e expor ao mundo quem somos.

“No cinzeiro cheio de cigarros fumados, os restos de uma carta...”. E daí nada mais fazia sentido. Andei porque era como minhas pernas respondiam à cartola que amassava meus cabelos.

E se alguém disser que eu me cale, até me calaria. Vai que seria assim, o fim de toda uma vida? E me peguei pensando. Vai...

12 setembro 2011

Quase irmãos


Ali do lado nos encontrávamos e, debaixo da cama de montar, dormíamos escondidos, beijando-nos. Éramos como irmãos incestuosos, sem camisas e com shorts de dormir. Era a cama, nosso forte, e a vergonha, nossos chapéus de caubói. E quando cansamos de sermos irmãos, viramos inimigos que vira-mexe encontram-se em ruas escusas e transam os corpos suados e estranhos. Cada vez descobrimos algo. Um pêlo, um braço, um coração. E quando chegamos bem perto, descobrimos que é para ali que andamos voltando. Ali do lado, onde fica aquele quarto todo azul, de cama sempre feita, deitávamos e nunca nos amassamos. Era uma coisa linda, eram dois dorsos verdes.

Hoje, da janela da minha sala, o que vejo é seu dorso bronzeado, suando no sol em abril, lavando um carro como você costumava lavar meus cabelos na pia do banheiro. Hoje, o que temos é nosso fraterno amor estranho, que não conhece os limites do corpo. Talvez nem saiba dar nome às partes.

09 setembro 2011

Eles três


Eles três fizeram história, cada um a seu modo. Um de direita, outro de esquerda e outro no meio, fechando os três que quiseram que fossem. Eles três tiveram nomes, cada um com sua rima, e levantaram as mãos no ritmo que suas vidas individuais aconteciam, entre uma passeata e um episódio de American Idol.

E porque eram três, foi difícil de ter um. Foi mais fácil de viver, por que não eram um. Cada um com seu cheiro e seu jeito de escrever. Dedilhando o vento entre meu rosto e seus peitos nus.

Sobre o pescoço esguio, magro e (por que não?) doente se estendia às três peças que tanto amei. Eles três foram meus de seus jeitos únicos. Um de dia, outro à noite, o terceiro em pensamento. Desses pensamentos com forma e sobrenome.

Foram três sobrenomes sobre vida passadas. Três motivos perdidos no tempo. Três tons de vozes que cantavam em uníssono, bem aqui no meu ouvido central. Eram as três salivas – quente, fria e úmida. Que me salivavam porque eram três.

Vem dizer que é nossa terceira vida, vem com clichês de que três é demais. Vem os três, que foram trezentos no meu folhetim.

07 setembro 2011

Dark room


De repente os olhos se fecham e só o que se sente é o cheiro de cigarro misturado ao de suor alcoólico daquela noite. E como toda noite é escura, os outros sentidos se aguçam nas pontas dos dedos da mão e nos fios de cabelo.

Quando sente a mão puxar os fios de cabelo tão ralos e finos, parece puxar dentro de si a noite escondida e toda a escuridão daquela noite. E como os olhos estão fechados, o que enxerga é o halo que semeia em seu peito cabeludo, debaixo dos anos que se passaram.

É como se todas as luzes se apagassem, consumidas pelas mordidas úmidas. As costas suadas e o toque do suor, que desce correndo pelo corpo trêmulo e escuro. Tomados pelo gozo combinado, aquele seca o corpo e banha a camisa xadrez.

Se o cheiro fosse suficiente. Se o toque dos dedos dissesse algo. Se o gemido e o elogio pudessem ser sentidos.