Mostrando postagens com marcador O Louco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Louco. Mostrar todas as postagens

09 setembro 2011

Eles três


Eles três fizeram história, cada um a seu modo. Um de direita, outro de esquerda e outro no meio, fechando os três que quiseram que fossem. Eles três tiveram nomes, cada um com sua rima, e levantaram as mãos no ritmo que suas vidas individuais aconteciam, entre uma passeata e um episódio de American Idol.

E porque eram três, foi difícil de ter um. Foi mais fácil de viver, por que não eram um. Cada um com seu cheiro e seu jeito de escrever. Dedilhando o vento entre meu rosto e seus peitos nus.

Sobre o pescoço esguio, magro e (por que não?) doente se estendia às três peças que tanto amei. Eles três foram meus de seus jeitos únicos. Um de dia, outro à noite, o terceiro em pensamento. Desses pensamentos com forma e sobrenome.

Foram três sobrenomes sobre vida passadas. Três motivos perdidos no tempo. Três tons de vozes que cantavam em uníssono, bem aqui no meu ouvido central. Eram as três salivas – quente, fria e úmida. Que me salivavam porque eram três.

Vem dizer que é nossa terceira vida, vem com clichês de que três é demais. Vem os três, que foram trezentos no meu folhetim.

27 janeiro 2011

Os meninos da retórica

Conheceram-se muito novos, quando as coisas ainda não estão devidamente decididas. Porque assim que decidissem, seria o casal perfeito. Se amariam debaixo do sol e da chuva e carregariam com eles a responsabilidade de que no dia seguinte houvesse o mesmo sol e a mesma chuva.

É culpa dos amantes se a chuva não cai antes ou depois do sol. Se o sol nem ao menos dá as caras. Ele costumava dizer isso em meio aos seus discursos retóricos, como quem domina não só a retórica, mas a consciência da retórica também.



Algo lhe intriga na palavra retórica. Talvez seja a lembrança que lhe traz do amor. Aquele amor bobo, despretensioso. Que tinha manias de fazer piadas, rir de si e de todos outros. Jorrava infantilidade pelas têmporas, ainda que alguns dissessem que aquilo se tratava de juventude e inocência. Era uma despreocupação.

Só lhe preocupava a retórica. Que a mesma estivesse intacta. E se assim fosse, seria bom para ambos. Fugiriam do destino de culpados. Livrar-se-iam do fardo que é carregar a responsabilidade pelo desaparecimento do sol e da chuva.

24 janeiro 2011

Derradeiro

07 de outubro de 2009 – 07:06h 
Ele saiu daqui há duas horas. Eu não consigo dormir, não quero entrar na internet, não quero olhar para ninguém. Também não quero levantar da minha cama e ir tomar meu banho para ir pra faculdade. Eu quero apodrecer nesse colchão, onde passamos a última noite.

Era pra ser só uma conversa, uma das inesperadas, quando eu chego na estação de metrô depois de um longo dia e o encontro parado me esperando. Coisa que acontece uma vez a cada três meses. Ele estava encostado na grade verde, a cabeça baixa e eu reconheci a cabeça cabeluda e as pernas compridas e todo o resto.

Ele pediu pra conversar e deu sorte porque estava sozinho em casa. Fazia muito tempo que um menino não entrava na minha casa. Mas eu não queria mais do que conversar.

Nós não nos víamos há uns dois meses, ele estava bem com a namorada. Confesso que às vezes até esqueço que ele existe e que ele foi o meu maior amor. Mas quando vejo seus olhos e sinto que ele me olha em troca, eu lembro de tudo. Das tardes de Friends, das descobertas dele, das dores com as fotos.

No caminho pra minha casa, tarde da noite, ele disse que precisava desabafar e, antes que eu pedisse pra ele esperar chegarmos em casa, ele me confessou que a namorada dele estava grávida.

A notícia veio por telefone naquela noite e o fizera se despencar até minha casa só pra me contar. Ele não sabia o que fazer e sentiu que precisava conversar comigo. Disse que quando me viu, parecia que a vida tinha solução.

Eu gelei. Parei no meio da rua e não sabia o que pensar. Gelei mesmo. A temperatura do meu corpo caiu e enquanto eu voltava a andar na direção de casa sentia meu corpo suar frio, minha nuca molhada e minha boca estava seca.

Ele pediu pra eu falar algo. Eu não sabia o que dizer. Estava nervoso pelo que estava sentindo. Coisa que nem eu entendia. Chegamos em casa, entramos no meu quarto e nos trancamos, mesmo sem ter ninguém em casa.

Troquei de roupa enquanto ele estava sentado calado no meu sofá-cama, olhando pros pés descalços. Eu sentei ao seu lado e perguntei por que ele disse que sentia que eu daria a solução. Ele disse que me amava e que sentia que estava fazendo há mais de um ano a maior besteira da vida dele.

Tive pena dele naquele momento, mas beijei-o. E ficamos naquele beijo por uns cinco minutos. Ele me tocava o rosto e sua mão também estava suada. Seu hálito era natural e seu cheiro era de suor fresco. Eu mantinha minhas mãos abaixadas, coladas ao meu corpo.

Nos olhamos e eu vi nele um pai de família. Em mim, eu vi um erro. Dormimos juntos. Ele disse que me amava de novo. E dessa vez foi como uma daquelas frases de efeito. Foi com lágrimas nos olhos. Eu disse que amava ele também. Mesmo que dois segundos depois eu estivesse me arrependendo, enquanto tirávamos nossas roupas.

21 janeiro 2011

Dos pés à cabeça



Os dedos do pé eram perfeitos. O primeiro media mais ou menos uns dois centímetros de largura e uns três de altura. A unha era limpa e branca. Sem nenhum arranhão, reta como se fosse feita de acrílico fosco, desses que se colocam em enfeites de casamento ou em abajures.

Corria por eles uma quantidade de pêlos. Lisos e negros. Compridos. O pé calçava em sapato 43. Normalmente usava tênis. Adidas SL ou qualquer outro modelo. Um bem comum era aquele inspirado em jogadores de basquete, preto no branco, de couro. O pé descalço era mais bonito. Fino na sola, cheirando a hidratante e suor fresco.

A perna era peluda, nem combinava com a meia branca até a metade da canela. A canela era grossa e forte. Eu conhecia cada centímetro da canela, enquanto gastava minhas forças a massageá-la. As coxas quase sempre cobertas por um tecido sintético, misturando o cheiro do tecido, do seu pêlo, do suor de dezembro e do sabonete.

Não usava cueca e quando usava era umas de algodão. Azul, verde, branca e lilás. A lilás, ele costumava dizer, era sua preferida. Guardada para as noites especiais. E quando ele estava só de cueca, era possível ver os pêlos lisos que lhe subiam pela barriga.

Não era magro, nem gordo. Não malhava, nem comia. Eram aqueles pêlos, que lhe cobriam o dorso - barriga e peito jovens. O rosto áspero e meio esverdeado. A barba crescia de dois em dois dias. Rodeava uma boca quase roxa, de lábios grossos que escondiam dentes meio amarelados, perfeitos e beijos cheios de saliva.

O cabelo era grosso, nunca estava oleoso. Penteado para trás, sempre fora de corte. Preto e sem brilho. Cheio. Era ali que minhas mãos passavam, terminavam quase sempre com um cafuné e uns beijos no couro cabeludo. Adorava sentir o cheiro do shampoo anti-caspa. Adorava puxar com força enquanto você desabava sobre mim.

17 janeiro 2011

Maracujá



Era aquele cheiro doce e inconfundível. Não devia me lembrar você. Devia me lembrar de todo o resto. Tudo ao redor, já que o cheiro vivia ao redor de nós dois e não em você. Mas só o que me vem à cabeça é sua cabeça jogada pra trás e seus pés na minha cadeira.

Não que eu lamente o fim de tudo. Não. Longe de mim, lamentar isso se eu já gasto tanto do meu tempo lamentando os outros infortúnios da minha vã vidinha. Se eu já lamento o suficiente a posição que meu cabelo exibe todos os dias do inverno às oito e meia da manhã. Especificamente.

Mas o cheiro me deixa tonto. E, pra dizer a verdade, sabemos que nada tem a ver com o cheiro. Se não sou eu nem você, o que somos? Somos aquele pé de maracujá na infância? Aquela tarde de areais brancas? Somos a praia e o vento que traz o cheiro da maresia. Mesmo que não adiante lembrar da maresia.

Adianta é lembrar do cheiro do seu suor, ainda que ele não seja tão doce. É dele que eu lembro quando me passa esse cheiro. E ele é de um amarelo maracujá. Um maracujá maduro que não se acha em árvores, nem em tardes de areias brancas.

14 janeiro 2011

Esquizofrenia



Descia do ônibus e o enxergava ao longe. Ele vestia sempre o mesmo short até o joelho, de tecido sintético e de cores que variavam entre o azul e o bolinhas minúsculas brancas no fundo roxo. O cabelo comprido, liso e seco, se juntando aos poucos com a barba quase sempre por fazer. Nos dias em que a barba estava feita, não era preciso ver a pele do rosto mais clara. O frescor de menta do creme de barbear exalava o cheiro pelo bairro todo. Aquele bairro onde descia do ônibus e o encontrava.

Iam andando o caminho até a casa, às vezes ele oferecia ajuda para segurar um material. Ouvia como a resposta sempre a recusa. Falavam sobre tudo. Sobre os acontecimentos na escola, sobre o perfume trocado ou sobre o namoro que mantinham em segredo. Entravam em conflito quando o assunto era o segredo. Não era consenso manter os beijos escondidos.

Ainda assim, mantinham. Não iam de mãos dadas, mas iam. E era só pelo gosto de ter a companhia até o portão de casa, porque afinal de contas, ele morava tão perto da escola. E no dia seguinte se reencontrariam na sala de aula. Trocariam olhares apaixonados sob o disfarce de uma amizade acabada. Mantinham o segredo.

Ao fim da aula ele se precipitava, pegava um ônibus e esperava o ônibus seguinte chegar. Com a companhia pela qual rezara. Com a conversa, os beijos e até as discussões que tanto implorava, em silêncio. Naquele dia, estava de barba feita, mas ninguém ao redor sentia seu cheiro.

11 janeiro 2011

Sentidos



Eu nunca vou esquecer dos seus olhos, me olhando como se eu fosse um estranho. Como se fôssemos estranhos. Não vou esquecer do aroma de álcool pré-juvenil que saía dos seus poros, nem do cheiro de refrigerante barato no meu hálito. Não me esquecerei da sua cara boba assumindo e gaguejando que tinha bebido um pouco.

Naquele dia nos acostumamos com a coragem. Aquela de entrar no banheiro e se ver no outro. Aquela que tem como trilha sonora qualquer música ruim de pista de dança. Nos acostumamos com o toque áspero dos nossos rostos.

Quando vi, já estava completo. Você em mim e eu em você. E não precisamos de nada mais que nós mesmos. Era só a música longe, seu suor alcoólico e o cheiro de urina de um banheiro qualquer. O banheiro do segundo andar.

Disso eu não posso esquecer. Da gente ali, naqueles dois minutos ou talvez menos. Durou uma eternidade e ainda assim não foi suficiente. E quando fecho meus olhos, escuto a canção. Como se eu nunca tivesse crescido nem experimentado outros tantos tatos.

08 janeiro 2011

Sexo



Eles não sabiam o que faziam. Muitos começariam dizendo isso. Mas não era o caso. Eles sabiam exatamente o que faziam. A cada movimento. A cada passo, a cada mão que subia.

Ela já havia até ensaiado algumas caras e bocas. Aquelas que iriam excitá-lo, se ela tivesse a devida coragem para fazê-las. Ele medira o tamanho do membro e entrou em fóruns da internet. Só pra ter certeza de que não havia nada de anormal.

Estavam no caminho certo quando se beijaram. Um bom sexo começa com um bom beijo. Isso foi o que a tia avó dela dissera, certa vez. Talvez a titia nunca tenha feito um bom sexo, pensava ela agora.

Era a primeira vez que ele colocava a língua em uma mulher. Estava especialmente excitado, ainda que não estivesse entendendo as caras e bocas que ela fazia. Rezava que aquilo fosse tesão também. Não queria passar vergonha na primeira vez.

Ela estava preocupada com a verruga no lado direito de sua cintura. Todas as vezes que a mão dele subia naquela direção ela logo tratava de afastá-la. Ele não tinha preocupações, senão a de que ela notasse que ele havia aparado os pelos pubianos. Tudo que ele não queria era que ela percebesse. Sabia que devia ter deixado maior.

Doeu, mente quem diz que não dói. Ou é alguém que não sente dores. Ela queria amaldiçoá-lo depois daquela dor. Mas não demorou muito. Logo ele estava sorrindo, de um jeito estranho. Beijando-a cheio de amor. Um amor que ela nunca sentiu da parte dele, em todo esse tempo que namoraram.

Se abraçaram, se beijaram. Então era isso?, pensou ela. Ele nem pensava em nada.

05 janeiro 2011

Corredor



O menino corria pelos corredores da escola, porque esse era o nome que recebera - corredor. Corria das vozes que gritavam atrás dele, chamando-o de nomes que até hoje não conhece tradução. Só sentia medo.

Crianças às vezes são assim, cruéis. Às vezes elas se deliciam com gramas de Skitles, mas outras vezes elas são cruéis. E fazem o menino correr pelos corredores, sem saber aonde chegar. Correr por correr, pra se sentir um pouco mais protegido.

E quando a gente cresce, percebe que só foram alguns anos, algumas palavras sem tradução, algumas traduções. Não passara disso. Agora a gente segue o caminho e percebe que, quando se aceita a melancia pendurada no meu pescoço, ela pesa menos do que pesava.

Não é preciso estar corcunda pra chegar a essa conclusão. Basta ter uma melancia no pescoço. Basta estar cansado de correr dessas crianças cruéis.

20 dezembro 2010

Joyce



Joyce tinha cara de menina do Ensino Médio. Loira, com a pele levemente corada, algumas espinhas aqui, outras ali. Um sorriso recheado de caramelo. Cheirava a doce de leite Havana e ele dizia que isso era o que mais gostava. Nem assim ela suspeitava. Ouvia músicas de cantoras feministas e melodramas compostos por Celine Dion, enquanto gastava horas conversando com a mãe sobre o filme que vira com ele. Ele não dava a mínima para o filme. Ainda assim, ela não suspeitava. Gostava de ir ao boliche e de jogar gamão com o avô esclerosado. Tinha os dentes tortos e a cabeça no lugar. Ele dizia que preferia o futebol e ela nem suspeitava. Não era beijada se não houvesse carinho e gostava de ouvi-lo dizendo coisas bonitinhas ao pé do ouvido com voz de Jude Law. Ele era perfeito e ela não suspeitava.

18 dezembro 2010

Filosofia

"Eu sou uma banheira transbordando sentimento. E não tem ninguém pra fechar a torneira. "