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01 fevereiro 2015

Esses


Tem quem não nasceu para amar. Esses são bombardeados diariamente com o amor dos outros, aqueles que nem percebem porque estão ocupados demais, amando. Tem quem chega à conclusão de que nunca existiu essa coisa de amor. Esses olham tudo com olhos cínicos, da ladeira de Santa Teresa ao casal apaixonado na portaria do prédio. Tem quem vive tentando. Esses dão o sangue e horas em conversas vazias sem fim porque não admitem que não fazem parte do seleto elenco da Malhação. Tem quem ama perdidamente. Esses, de tanto amar perdidamente, se perdem irreversivelmente e nunca se acham nessa matéria negra e líquida que nasce de dois. Tem quem prefere aproveitar. Esses amam um pouco aqui e um pouco ali e sentam em mesas de bares dizendo que não amam nunca ninguém. Tem quem acha que aquele é o amor e ponto. Esses estão sempre falando de estabilidade e de The Voice Brasil, achando um absurdo quando cruzam com aquele casal loucamente apaixonado na saída do metrô.

E tem eu.

20 julho 2011

A tarde do dia seguinte


Li Gabriel García Marquez pra tirar a foto do perfil do Facebook. Quando me disseram que fotografariam na tarde do dia seguinte e quando percebi que a tarde do dia seguinte seria uma tarde de quarta-feira, corri pro quarto e deitei na cama, lendo Gabriel García Marquez.

Comecei com Memórias de Minhas Putas Tristes e terminei com Cem Anos de Solidão, porque no fim esses foram os únicos que tive tempo de ler. Fechei os olhos, nas horas que me restaram, contando os minutos para a tarde do dia seguinte.

Entrando na sala de fotografia, onde fui recebido por ninguém mais nem ninguém menos que Deborah Secco, percebi que muitos haviam tirado a camisa, ou feito escovas progressivas, ou ainda grudado suas línguas no lado de fora de suas bocas.

Respirei fundo e ajeitei toda a leitura que tinha feito para aquela tarde. Tudo em seu lugar. Pronto para a fotografia. Sentei num banco desconfortável, entre um menino de treza anos de cabelos cortados como Justin Bieber e minha tia, esperando a hora em que eu, enfim, pudesse mostrar todo Gabriel García Marquez que existia dentro de mim.

09 outubro 2010

No fim da semana


No fim da semana, ele nem lembra seu nome. Se acostume com isso, vivemos no terceiro milênio. Quando o sexo pode ser casual e sua mãe pode saber que é casual, quando sua mãe entende o que é sexo casual e seu filho também, quando beber coca-cola virou hábito banal, bandas de rock devem ser estranhas e chatas, fumar é visto como coisa feia e ninguém lembra seu nome.

Ele pode dormir no sofá da sala, transar loucamente ou simplesmente beber uma cervejinha importada gelada, aquela que você guarda para as ocasiões especiais. Com certeza, no fim da semana, ele já terá apagado o seu telefone do celular dele. Deve ser celular smartphone, porque ele é antenado.

Não espere um convite para uma segunda, a cabeça dele funciona em outra velocidade. A essa altura ele já deve estar dormindo em outro sofá, transando loucamente com outra pessoa ou simplesmente bebendo uma cervejinha importada que não é você quem guarda para as ocasiões especiais.

Nem pense em se suicidar, vai dar muito trabalho pra quem catar os restos.

05 outubro 2010

Fim


Queridos fãs,

Batalhei muito pelo lugar que alcancei. Foram anos trabalhando o tom da minha voz e a expressão de menina-moleca que eu estampo no rosto. Não que todo esse tempo e esforço pareçam hoje em vão. Não. Entretanto, cansei dessa imagem.

Não consigo mais carregar nas costas a realidade de ser a princesa de um reinado falhido, onde todos não passam de sapos disfarçados de príncipes feiosos, estilosos ou legais. Não quero um príncipe legal.

Hoje acordei com o sentimento que esse castelo e todos os príncipes que conheci não são suficientes para mim. Nem mesmo as tabernas da região causam o efeito que outrora causaram. Hoje percebi que a responsabilidade que tenho, de ser o que esperam de mim, é algo que não tenho mais estrutura para suportar.

Sei que muitos sentirão falta. Que muitos sapos alimentavam esperanças de que um dia aquela princesa burra que sai por aí beijando sapos lhe daria a honra de tornar possível o uso de calças jeans aos fins de semana. Mas essa princesa mudou.

A partir de hoje, torno oficial meu abandono do trono e abro mão também das inúmeras oportunidades que teria para hidratação gratuita com o melhor salão de beleza do reinado. Minha intenção não é chamar atenção, que fique claro aos papparazis. Quero seguir adiante minha humilde vida de mortal.

Passarei a atender pelo simples nome de Sandy, sem mais. De cabelos escuros, sujos e sensuais. Não aceito propostas para posar nua, nem duetos com rappers internacionais. Quero me descobrir.

Com carinho

Ex-princesa Sandy

20 setembro 2010

Ah, tá legal

Muitas vezes não adiantava o quanto se esforçava. A sorte não brilhava para Sandy. Sua nova empreitada, o príncipe Legal, logo se tornou passado. Tudo ocorreu por volta de um mês depois daquela noite fresca em que se conheceram.

Depois daquele fatídico dia, Sandy e Legal se encontraram algumas vezes, saíram algumas vezes e chegaram a beijar na boca algumas vezes. Os dois pareciam satisfeitos com o caminho que se dava aquele acordo romântico e como aquilo afetaria a estabilidade de ambos os reinos.


Sandy se resguardou das tabernas, bares e botecos e se esforçou para acompanhar o ritmo alucinante de Legal. Recém terminado de um namoro com uma mera mortal, Legal parecia abalado, disposto a superar a ex-pretendente e encantado pelos efeitos do loiro mágico dos cabelos de Sandy.

Por outro lado, nossa princesa se via sonhando com o futuro ao lado de Legal, de tão legal que ele era, e parecia já superar as tragédias mais recentes de sua vida real: o Sapo, Piru-rosa e príncipe Feioso.

Mas todo semestre tem seu fim e as atividades no reinado começaram a ficar cada vez mais exaustivas e sugando as forças de princesa que habitavam o sangue e o suor de Sandy. Por algumas semanas, ficou sem ver Legal e sem acompanhar seus passeios no bosque e as festas do reinado do rapaz.

Até que descobriu que Legal andava se reaproximando da Ex-mortal. O rapaz tentou ser honesto, como há de tentar ser todo e qualquer príncipe legal. Explicou que não sabia qual caminho teria aquela relação e outras palavras que Sandy nem se deu o trabalho de ouvir.

Cascuda e experiente, depois de meses entregue à própria sorte amorosa, Sandy decidiu se afastar de Legal e esperar o semestre acabar e as atividades no reinado lhe darem tempo para digerir mais um tropeço nas ruas do amor.

27 agosto 2010

Curta esse post


Naquele dia de manhã ele só queria sair por aí, curtindo mensagens. Quem postava carta de suicídio, ele curtia. Carta de amor, extrato do cartão de crédito. Curtia. Letra de música, tradução do Vagalume, testamento. Curtia certidão de nascimento, casamento. Menos a de óbito, essa já andava muito popular pra merecer ser curtida. Curtia como curtia andar pela orla da Barra em dia de sol. De óculos escuros e tomando água de coco, claro. Quando menos esperava, estava lá, com o polegar levantado, curtindo o que viesse pela frente. Teve momentos que curtiu até o ensaio fotográfico sensual da apresentadora do TVFama. Esqueceu e curtiu. Fechou os olhos e curtiu a frase daquela coluna de semana retrasada escrita pelo Paulo Coelho. E o tweet daquele cara que insiste em lutar pela causa homossexual. Curtiu o telefone da madrasta e a conta corrente do cunhado. Durou um dia mais ou menos, aquele dedo de pé, curtindo por aí, sem pensar nas conseqüências, no quanto ele faria as pessoas sofrerem. Mas o mundo tem dessas coisas. Um belo dia, você acorda com vontade de curtir tudo e é algo incontrolável.

16 agosto 2010

Bunda suja


Eu lembro das vezes em que estive apaixonado. Foram poucas e rápidas, como o sexo de qualquer adolescente sortudo. Eu lembro que não fiquei bobo. Não como ficam os carinhas que deixam rolar, os que têm uns vinte e poucos anos. Eu lembro que eu beirava os quinze anos e era bem mais magro, mas isso não importa, né? O que importa é que eu lembro de não ter ficado com essa cara de idiota que eu vejo as pessoas estamparem nas fotos de perfil do Orkut, ou naquele crachá de funcionário do ano. Amor era e sempre será funcional. Assim acontece com os leoninos, ou é mais uma lenda sobre leoninos. Alguns diriam para o zodíaco inteiro ir se foder ali na esquina da Jorge Rudge com a 28 de Setembro. Mas eu fico só olhando as atualizações de Orkut, esperando que tamanho nojo me emagreça. Algo de bom eu tenho que tirar da internet. Preparo o balde vazio de frango frito, que comi, comprado ali no Hot’n Terder. Vai ser nele mesmo que eu vou vomitar. A culpa é sua, que deixa as coisas rolarem e faz cara de babaca na foto do perfil do Orkut. Sua e daquele inseto que insiste em me rondar no momento em que retorno cinco anos atrás, até as beiras dos meus quinze anos pra lembrar se eu fazia essa cara. Essa mesmo, de bunda suja, que dá nojo (vômito de novo). A cara, é óbvio, não era de bunda suja, mas as saboneteiras despontavam como hoje não despontam mais. Amor emagrece e solidão faz você ir ao rodízio japonês se empanturrar de sashimi comendo com elástico. Beber ice tea de pêssego não faz você engordar menos, porque afinal de contas, você está sozinho. Muito ou pouco, você irá engordar. Até encontrar alguém disposto a aturar suas banhas, pra você emagrecer de novo e fazer cara de bunda suja, ou começar a lutar contra esse instinto natural de fazer cara de idiota e estampar com ela a foto do perfil do Orkut. O seu perfil e o do resto do mundo.

07 agosto 2010

Daquela conversa sobre aquele professor

Uma cerveja: Estávamos os três, eu, você e ela.

Duas cervejas: Ela? Ela também estava?

Uma cerveja: Estava. Falou alguma coisa relacionada a mil e depois emendou com cervejas, mas eu não imagino que tenha alguma coisa a ver com mil cervejas.

Duas cervejas: Não lembro.

Uma cerveja: Ela falou dele. Lembra? Que ele desmunhecava.

Duas cervejas: Disso eu sempre soube. Vocês que sempre foram contra mim, diziam que era coisa da minha cabeça. Ela também já viu? E olha que ela nem faz aula nenhuma com ele, né?

Uma cerveja: Não. Ela é orientanda dele.

Duas cervejas: Jura?

Uma cerveja: Você não lembra mesmo? Ela falou do Aaron e de como ele é gostoso.

Duas cervejas: Eu falei alguma coisa?

Uma cerveja: Ela que falou. Falou também do Gustavo. E de como ele também é super gostoso.

Duas cervejas: E eu?

Uma cerveja: Você falou dele, que ele desmunhecava.

Duas cervejas: Mas ele desmunheca.

Uma cerveja: E o que isso quer dizer, afinal de contas?

Duas cervejas: Não sei. Não sei. (segura o queixo com a mão esquerda)

05 agosto 2010

Supermercado


É preciso fazer a lista corretamente e com atenção, que é pra não chegar em casa com nada que não estivesse nos planos desde o início da operação. A gente sempre precisa voltar de vez em quando durante o mês, não tem como evitar. Tem coisa que apodrece se a gente guarda, é por isso que a gente volta com freqüência. O que não apodrece a gente deixa em estoque. Guardado lá naquele armário. A gente vai uma vez só, compra o que dá pra um mês e quando vê dura uma eternidade. Se não apodrecer mesmo depois de uma eternidade, use. Não tenha medo de tirar do armário e não coloque em nenhuma lista enquanto o seu não tiver acabado. Pra que gastar por nada? Não se iluda com aquelas guloseimas, elas engordam, fazem mal ao sistema sanguíneo e dão uma falsa sensação de felicidade. Ninguém quer uma falsa sensação de felicidade, a não que você esteja a beira da demissão. Essas coisas que chamam atenção da vista, deixe lá, não carregue. Quem tem ecobag então, tem menos direito. Saiba que você cresceu e que é sua responsabilidade escolher o que é útil e o que é fútil. E isso é fútil, vai por mim. Se você não resistir, finja-se de boba. Dê também uma de João-sem-braço e jogue na sacola, aquela que você leva o mais essencial e o absorvente.

03 agosto 2010

Parada


Eles dançam como se fosse carnaval, sob o sol das três da tarde às três da manhã. E cantam músicas atrás do trio-elétrico mais brega de todos os tempos. Carregam faixas com dizeres, se fantasiam e usam o salto alto que fica escondido o ano inteiro. Colocam as perucas, sorriem e bebem aquela cerveja. Sim, três por dez. Alguns se arriscam mais e levam uma garrafa de alguma bebida quente e os outros aparecem lá com a roupa do trabalho. Vi até meia arrastão. É a oportunidade perfeita de misturar quem vem da Zona Sul com quem vem da Zona Norte. E ainda sobra aquele gringo com o chapéu de palha do lado daquela mulata(?) de vestido grudado. Ainda tem aqueles que se asseguram da paz. Eles ficam lá em cima, na varanda, olhando o mar que vem depois do mar de gente. E o mar anda tão colorido ultimamente. Tem sempre uma mulher, em cima do trio-elétrico, cantando, dançando e falando coisas engraçadas. Normalmente alguém que pareça com a Preta Gil, que é a Claudia Leite daquele dia, daquela praia. Sim, ainda tem a praia, ao fundo, cheia de gente que se diverte todos os dias do ano e não só naquele feriado. Alguns se beijam, beijam os amigos e os amigos dos amigos. Ao mesmo tempo. Isso depende de cada um. O que importa é que está meio que tudo liberado. Não, não se assuste, é só um dia, só uma praia. As pessoas falam de orgulho e sorriem, porque orgulho dá alegria ou alegria dá orgulho. E falam como se fosse militância usar bermuda de surfista, piercing e desfilar sem camisa. Evite a palavra desfile. Faça uma parada, antes que a Farme de Amoedo exploda, e finja que o que está fazendo é revolução.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.

30 julho 2010

Pessoas que reclamam demais


- Boa noite.

- Boa noite.

- Diga seu nome e conte sua história.

Ele ficou um pouco constrangido com todas aquelas pessoas ao seu redor e começou.

- Me chamo Enjoado. Eu tenho 20 anos. Moro com minha mãe e irmã. Eu nem sei se tenho um problema mesmo, mas decidi vir aqui porque estava me sentindo triste desde o dia em que pararam de me ligar. De início, eu até achei bom. Eu sabia que não daria em nada mesmo. Até que bateu a carência, a depressão. Nessa hora, eu me apeguei nos meus amigos. Dizem que meus papos estão meio chatos, que eu só ando choramingando pelos cantos e pelas bordas, repetitivo. Eu juro que parei de falar disso. Juro. Meus amigos também pararam de me ligar, quase todos, e nunca mais me chamam pra noitadas porque eu sempre acabo bêbado mandando SMS pra qualquer um. De início, eu fiquei meio desesperado. Mas eu sabia que eu devia entrar no bate-papo da UOL e tudo melhoraria. Adicionei quatro pessoas que querem ver o que rola. Todas me bloquearam quando viram minha foto no MSN. Eu não quero reclamar, não. Mas às vezes parece que as coisas só dão errado comigo. Até ontem, eu tinha uma amiga. A única que tinha sobrado. A gente bebia, enchia a cara e terminava a noite com cara de choro, cheiro de cigarro e a boca toda engordurada da batata com calabresa ou do frango a passarinho que a gente dividia. Ela também parou de me ligar. Hoje à noite eu não tinha nada pra fazer. Nada. A não ser a garrafa de vinho, os nuggets na geladeira pra fritar e o episódio de Glee. É, o último. De repente notei que preciso de ajuda. Ainda há tempo pra mim?

27 julho 2010

A princesa cresce


Algum tempo depois...

Era uma noite fresca, dessas amenizadas pelo sabor da caneca semi-congelada de cerveja, ao som de uma banda ao vivo, último sucesso do reino. Sandy relaxava porque era sábado. Relaxava e aproveitava para reencontrar os amigos.

Fora muito trabalho até então. Muito esforço e muita paciência para amadurecer. Amadurecer requer dessas coisas que Sandy não era acostumada. E naquele dia ela estava ali só para relaxar.Com o mesmo tom de pele claro, o cabelo misteriosamente mais aloirado e as roupas de uma cantora jovem que cresceu.

Na mesa em que estava com os amigos da floresta sentou-se dois desconhecidos. Uma plebéia que crescera nos quintais de um dos animais, ainda que isso não faça sentido e o príncipe que a carregava naquela coleira de aço escovado.

Os amigos fizeram amizade com o casal novo e Sandy logo pôde perceber a beleza do príncipe, que veio a saber se chamava Legal. Legal não era mais que isso: legal. Fazia piadas engraçadas, um curso superior interessante e carregava plebéia numa atitude estranha naquela coleira.

A noite passou e Legal continuou a procurar Sandy. Mensagens e mais mensagens chegavam com os pombos de seu castelo. E algumas eram endereçadas aos amigos da floresta. Não era costume no reino manter tanta intimidade só com umas cervejas numa noite em uma taberna.

Logo notou-se o interesse de Legal por Sandy e que aquela atitude entre o príncipe e a plebéia era insignificante. Sandy e Legal se encontraram mais uma vez e aprofundaram os laços da relação. Se beijaram e como era de se imaginar não foram sinos o que ela escutou. Foram previsões do que vinha por aí.

Ela era uma mulher, uma princesa que continuava cantar e encantar ao lado dos animais da floresta. Mas os acontecimentos recentes fizeram-lhe desabrochar a maturidade. Ou parte dela. Não havia como evitar. Sandy estava pra começar, mas de uma maneira bem diferente.

26 julho 2010

Entrevista de emprego


O que você gosta de fazer nos fins de semana?
Sair pra encher a cara, principalmente se eu não tenho um tostão furado no bolso e consigo voltar pra casa bêbado às custas de alguém. Se esse alguém dormir comigo depois, melhor ainda. Gosto também de ir ao cinema, mas só assisto sessões legendadas e de preferência sem 3D. Não curto muito o 3D, não.

Qual é o sua maior qualidade?
Difícil, eu sou muito auto-crítico. Isso conta?

E o seu maior defeito?
Sou o dono da verdade, sou difícil de lidar, autoritário, às vezes sou fofoqueiro também, mas só quando a fofoca vale a pena.

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Qualquer coisa? (pausa para pensar com os olhos perdidos no ventilador de teto empoeirado) Eu deixaria de ser viciado em comida. Isso me atrapalha muito. Se eu não fosse tão gordo, transaria com muito mais freqüência e com muito mais pessoas. E quando eu quisesse sossegar meu facho também seria mais fácil porque minhas chances de arranjar alguém legal seriam maiores que as de uma pessoa gorda.

Por que você escolheu Engenharia Química?
Dinheiro. Só por isso mesmo. Eu odeio cálculo, odeio física e odeio o fato de não ter nenhum ramo na Engenharia Química que seja ligado à literatura. Foi por dinheiro mesmo. Me disseram, na época da escola, que daria dinheiro, que é um mercado em expansão. A história do petróleo e tal. Então, aí eu fiz.

Qual área da Engenharia Química você prefere?
Escritório, de preferência projeto. Sem prazo. Odeio prazos. Mas no escritório seria bom. Morro de medo de ter que passar a vida toda usando jaleco. (vira os olhos e faz cara de nojo – a mesma cara que ostenta desde o início do diálogo) No escritório é legal porque eu posso ir bem vestido, vou ter uma mesa e um computador pra ficar atualizando o Twitter durante o dia ou vendo pornografia.
(a mulher anota algumas coisas no caderno que tem a sua frente)

Obrigada, quando a gente tiver uma resposta a gente entra em contato, ok?
Ok.

23 julho 2010

A derivada do logaritmo neperiano de x


A derivada do logaritmo neperiano de x, também conhecido como logaritmo natural (eu acho), é a razão de 1 para x. Esse número que parece simples pode mudar a vida de um ser-humano. Ela olha você nos olhos e joga na sua cara que você não foi feito para aquilo. Ela brinca de te constranger e sorri, a bendita da derivada do logaritmo neperiano de x. Pode ser que você tenha nascido pra ser cabelereiro e não adianta lutar contra isso. Ou talvez você tenha que escrever meia dúzia de imbecilidades que ninguém jamais vai ler. O certo é só que você não nasceu para resolver a derivada do logaritmo neperiano de x e isso é a própria quem fala pra você. Na letra garranchada de alguém que sabe resolvê-la ou nas vozes daqueles que sabem como chegar até lá. Não adianta tentar enganar. Uma hora te descobrem e o que você tem a fazer é esperar que não seja tarde demais, que ainda haja tempo de você voltar atrás e que você tenha poucas rugas sob a sobrancelha ou que você na tenha uma bolsa muito gorda debaixo dos olhos. Os mesmos olhos que observam de longe o sorriso da marota da derivada do logaritmo neperiano de x. Pode ser que daqui a um tempo você lembre daquela bela expressão e sorria, se vangloriando de que você é o tipo de rapaz que larga a Engenharia Química e faz Jornalismo. Letras-Literatura ou Cinema. Pode ser que tudo dê certo ou que não. Certo mesmo é só o resultado da derivada do logaritmo neperiano de x, aquele que você, não importa o quanto tente, nunca vai saber.

21 julho 2010

Do dia em que eu quase me suicidei


Tocava Prince no meu MP3, repetidas vezes. Purple Rain. Era assim que eu queria morrer, ouvindo o som melódico dos anos 80, debaixo da chuva fina que caía na rua. Já eram mais de onze da noite e ninguém me esperava em casa com uma comida pronta. Eu nem poderia comer, porque comer engorda. Meu guarda-chuva estava fechado na minha mochila e o meu cabelo já estava fora de corte. Naquela noite, deu uma vontade de me suicidar. Dessas que não se controla, sabe? Que você, simplesmente, se lembra dos remédios velhos que a sua velha usava quando estava em depressão. E você se lembra das garrafas de licor, vodka e uísque que estão na porta de vidro do armário da cozinha. Lembra do copo de licor que seu amigo trouxe de Paris e dos milhares de rodízios que você não recusou. Aí você sente ainda mais vontade de se suicidar. Minha blusa estava apertada, daquele jeito que ficam as blusas dos gordos que insistem usar roupas da época que fora o mais próximo que se tenha chegado de magro. Eu sou do tipo de garoto gordo que continua usando blusa da época que era o mais próximo que um dia cheguei de ser magro. Talvez eu morra sem saber o que é ser magro, é o que me diz os joelhos que eu como entre as cinco e as seis. Taí mais um motivo pra eu me suicidar. Tinha que ser de um jeito leve. Sem traumas. Nada de morrer e se traumatizar. Já basta o trauma em vida de ser gordo, insistir em usar roupa de “magro” (entre aspas mesmo) e ouvir Prince no meu MP3. Os remédios da época da depressão da minha mãe talvez agora serviriam de algo. Já que não tirou ela da depressão. Mas não antes de chegar naquela parte onde o Prince mexe com a voz daquele jeito que me arrepia. Podia ser a última vez que eu ouviria um barulho tão belo. Faço questão.

08 junho 2010

Eclipse


O eclipse estava previsto para aquela semana, era o que tinham enxergado nos fundos dos poços os magos do reinado. Sandy, com medo daquilo que nem sabia, se reaproximou dos amigos e, com eles, do sapo.

Toda a reaproximação acabou em beijos na boca. Ainda que o sapo temesse voltar a ser sapo, ao beijar a bela e loira princesa. Ela já havia cansado das tabernas e dos romances efêmeros, ainda que não estivesse disposta a aprovar todas as calças que o sapo agora vestia.

A intenção de Sandy era manter uma relação aberta. Dessas que a gente só encontra nos filmes excêntricos que fazem na Europa. Eles trocariam beijos durante a semana e dariam a volta no lago aos sábados, sem compromisso, é claro. Era mais um jeito de conseguir uma companhia masculina-anfíbia fixa do que amor.

Como falamos de um reino festivo, foi em mais uma festa que Sandy e o sapo passaram dos limites nos tonéis de vinho que consumiam. Carregaram nas costas o peso das mágoas e dos desejos. Não há dia melhor que a véspera do eclipse.

Sandy não contava, entretanto, com a notícia que vinha junto com o eclipse. Um amiguinho da floresta, daqueles bem desinformados, sem saber do recente envolvimento entre o sapo alpinista social e Sandy - a princesa apaixonada - declarou o que sabia sobre uma outra princesa. Uma que não se chamava Wanessa. Uma que teria sobrenome.

O sapo estava conhecendo uma outra menina, longe do ramo artístico e da música. Não era ex-BBB nem integrante de grupo baiano. Sobre ela, não sabia-se muito. Mas era o suficiente pra Sandy saber que eles estavam namorando.

O plano da princesa, indo por água abaixo, se tornou sua frustração da semana. E seu motivo para beber na taberna. Afogar as mágoas, como se não exibisse cabelos que, a cada dia, estavam mais loiros. O único homem, aquele que só se tornara homem ao beijá-la, não havia respeitado ela.

Amaldiçoava cada calça jeans que o sapo usaria. E cada noite de sábado que não passariam juntos. E cada tonel de vinho que bebera na noite antes do eclipse. A fossa foi tamanha que ela nem notou a sombra da lua na frente do sol. Nem a chuva de confete que caía debaixo da janela. Aquela onde um plebeu fumava aquele cachimbo cheiroso. Ela só podia ver o fundo do seu copo.

04 junho 2010

Aprenda


Ninguém nasce sabendo. Todo mundo aprende com a vida. Lá pelos 16, ou 18 anos. Alguns demoram até os 25, os mais tímidos. Mais que isso, pode ser considerado aberração. Ninguém nasce sabendo e são poucos os que acertam de primeira. Alguns demoram mais que os outros, o que importa é que um dia acerte. Unzinho que seja. E nesse dia haverá distribuição gratuita de pirulito de tutti-frutti, pela conta do felizardo que finalmente aprendeu. Aprender é difícil. Não subestime esse avanço. Existem aqueles que estão a vida toda se gabando de já terem aprendido, quando na verdade ninguém tem coragem de dizer que não é bem daquele jeito. E quando você termina é sempre bom dar uma olhadinha nos olhos da pessoa. Você pode fingir que é romântico e que liga para o famoso olho-no-olho, mas você tem de estar atento pra notar qualquer resíduo de insatisfação. Caso haja, tentar de novo na próxima vez, com mais afinco. Pra quem não aprendeu ainda, é bom rezar para haver a próxima vez. E a gente sempre tem que aprender mais, principalmente quando se muda muito de namorado. Mais ainda quando não namora. O importante é aprender e não ficar pra trás. Não desista dessa missão. Quando a gente aprende o mundo fica colorido e a gente pode sorrir mais. Aquele sorriso de orelha a orelha que só os que já aprenderam conseguem dar tão espontaneamente. Pra aprender é sempre bom exercitar. Com os mais experientes, de preferência, e estar aberto para as dicas que possa receber. Não entenda mal as críticas nem as mensagens de celular não respondidas. Parta para outra e aprenda. Tem gente que você se engana e que simplesmente não tem vocação para passar os ensinamentos da vida. Essas pessoas vão morrer cedo, provavelmente de alguma doença ligada ao sistema digestivo.

29 maio 2010

O mal do século


A verdade é que o metrô é um ambiente rico em diversidade. É cheio de micro-organismos, aos quais somos expostos diariamente sem nem percebermos, quando pegamos a Linha 1 ou a Linha 2. Alguns deles só olham a gente, de longe, encostado no tubo de metal entre a velhinha que vai buscar a aposentadoria e o rapazinho de aparelho que vai pra aula do ensino médio. Isso quando o indivíduo que olha não é a velhinha da aposentadoria ou o rapazinho do ensino médio. Eles mandam aquele sorrisinho maroto e jogam a cabeça pra direita, como quem diz “Já é?”. Eles adoram dizer “Já é?”. E ainda existem aqueles mais agressivos, que basta entrar no vagão, percebem a nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade à sua espécie, e se colocam o mais próximo que podem. Tão próximos que parecem nos tocar, carinhosamente, que é para que aquele ato não seja doloroso, quando você lembrar daqui a uma semana. Carinhoso para que quando a gente entrar no mesmo vagão que eles estejam, eles possam de novo se aproximar e abusar da nossa receptividade. Existem pessoas receptivas a esse tipo de micro-organismo, acreditem. Essas pessoas preferem a doença da sujeira do metrô do que uma viagem tranquila. E, uma vez contaminadas, essas pessoas estarão acostumadas com a abordagem. É o mal do século, aquele que as autoridades não se preocupam em erradicar. O metrô está cheio deles.

26 maio 2010

Perfil Fake no Orkut


E daí que o Garoto namora o Perfil Fake no Orkut? Eles trocam recados, marcam-se em fotos, e roubam um a senha do outro pra escrever, no status ou em qualquer outra lacuna que o Google disponibiliza, que se amam.

E se eles se amam também não é problema nosso. Hoje em dia existe amor de todas as maneiras. Uma vez me disseram isso e eu acreditei piamente. O que importa é o amor, esse é o mundo moderno.

Perfil Fake no Orkut grita aos quatro ventos e aos outros também que o Garoto é a melhor coisa que já lhe aconteceu. Que depois dele o mundo se tornou melhor e todas aquelas lamentações que só os apaixonados no Orkut sabem o que significa.

As pessoas se perguntam o que Garoto vê em Perfil Fake no Orkut. Garoto teria chances de conseguir quem quisesse na fila de qualquer boate que enfrentasse. Ele iria entrar, beber, dançar e se enroscar com qualquer pessoa lá dentro. Mas por algum motivo ele prefere Perfil Fake no Orkut. Ele prefere entrar à noite na internet, logar no Orkut e inventar palavras para que o amor deles tenha sentido. Ele prefere preencher as lacunas de Perfil Fake no Orkut a ter suas próprias lacunas esvaziadas pelas filas de boates.