12 novembro 2018

Carta I

Eu pensei hoje o dia todo na gente. Você deve achar que eu nem lembrei de você e que eu sou um insensível, mas foi exatamente o contrário. Eu conscientemente fiquei na minha e não quis te procurar pra tentar avaliar o que estava acontecendo comigo. Pra você isso tudo pode ser normal, pra mim foi muito intenso. Agora parando para pensar, foi intenso demais. Tanto que eu não sei o quanto disso era real e quanto era empolgação.

Eu fiquei relembrando mentalmente os momentos que a gente passou junto e os momentos que a gente passou longe. E sinceramente isso me ajudou a perceber que a gente quer coisas diferentes. Eu quero alguém que goste de mim e você quer um relacionamento estável. Até podia ser que as duas coisas fossem uma só, mas não eram. Você claramente não está interessado em mim e eu não estou preparado pra um relacionamento estável.

A sensação que eu tenho é que quando eu estou com você, você não faz questão de estar comigo. Não que você não gostasse complementarmente de mim. Mas era como se você estivesse mais interessado no que a gente iria significar como casal. Sabe? A foto no Instagram, a fantasia de carnaval, o réveillon... enquanto eu só queria alguém que me quisesse. Que curtisse estar comigo. Que me fizesse sentir querido. Por mais boa vontade que tenha tido, você não fez eu me sentir querido. E tudo bem. Talvez você não me desejasse mesmo. Você tem direito. Minha impressão é que você confundiu que me desejava, quando na verdade você desejava era que desse certo essa possível relação estável comigo.

Já eu fiquei tentando acreditar que eu conseguiria corresponder às necessidades de outra pessoa. Atender os pedidos de atenção, responder mensagens, atender telefonemas... a verdade é que eu estou sozinho há muito tempo e eu sou péssimo nisso. A verdade maior ainda é que eu acho que não quero melhorar nesse quesito. E eu entendo que não seja justo com uma pessoa preocupada e com boas intenções ignorar a sua existência enquanto a minha vida estava interessante e só procurar por obrigação ou tédio. Eu conversei com um monte de gente e até entendi melhor as suas necessidades. Quase todas são bem comuns entre casais. Só que eu acho que eu não sou material pra casal mesmo.

Eu não quero magoar você. Apesar de saber que você vai ficar magoado. Mas eu acho melhor a gente realmente parar o que a gente começou agora, no início. Enquanto ninguém está muito machucado. Vai dar pra você recomeçar e eu espero que você foque nos seus sonhos. Espero que você não fique com raiva de mim e que você me desculpe por mandar uma mensagem escrita. Mas eu não ia conseguir me expressar e falar tudo que eu queria de outra maneira.

Não sei se faz diferença pra você nessa altura do campeonato, mas eu não menti pra você. Eu posso ter me enganado. Mas não menti pra você. Eu queria mesmo tentar fazer dar certo. Mas eu não consegui e descobri que eu não quero mais tentar. Estou sendo o mais sincero que posso enquanto escrevo essas palavras. Desculpa por te frustrar.

Beijo

06 outubro 2018

Bairro do Flamengo


Eu ando pelo bairro do Flamengo, admirando os canteiros, sentindo a umidade do ar. Eu ando pelo bairro do Flamengo e vejo os meninos a me admirar. Eu ando pelo bairro do Flamengo, nas minhas mãos uma pipoca, um picolé ou coisa que o valha. As crianças indo para a escola. Os caminhões de entrega do Zona Sul. É cedo quando eu ando pelo bairro do Flamengo. Às vezes tem uma neblina fina, uma névoa geladinha que vem da praia. E os prédios altos e as árvores. A calçada do Belmonte, o aterro. Aquele vento forte bate no meu rosto e balança meu cabelo curto. Me sinto um anjo levitando. Sou capaz de parar entre as pistas e passar o dia ali, vendo a movimentação. Taxis amarelos passam zunindo por mim, de um lado e do outro. O barulho vai aumentando. A cidade vai passando pelo bairro do Flamengo, do mesmo jeito que eu um dia passei. E quando eu penso em fincar o pé no gramado, percebo que ainda estou no ar. Um ar agora iluminado por um sol quente e radiante que vem lá de trás do mar. O sol aquece a minha pele, aquece o meu cabelo, os meus olhos. Eu os fecho e sinto o bairro do Flamengo me transpassar enquanto espero a noite chegar. E no deserto do aterro, nas calçadas vazias e escuras, passam pessoas que me olham, que me amam, que me beijam, que me transam. Nas pistas passam os ônibus, os taxis, os carros. Em mim passa o bairro do Flamengo.

20 setembro 2017

Meninas


Quando éramos meninas, você tinha mania de escovar os meus cabelos e de cheirá-los com paixão. Hoje eu sei que era de paixão o seu olhar que eu via refletido no espelho do quarto antigo da minha avó. E você então fechava os olhos, como quem se esforça para gravar na memória aquele cheiro, mesmo que no dia seguinte você me tivesse ali, a sua disposição. Quando éramos meninas brincávamos de ser casadas, mesmo que na época nada tivesse realmente um significado. Era só nossa vontade de ser menos menina, de crescer. Encenávamos brigas e reconciliações para evitar um divórcio desastroso como o dos seus pais. Quando éramos meninas acreditávamos no amor, apesar de não acharmos que o amor tinha tudo a ver com os beijos escondidos debaixo do lençol que dávamos quando dormíamos na mesma cama. Quando éramos meninas, os verões eram menos quentes e mais agitados. Corríamos. Ainda posso ver seu cabelo ondulando o vento, deformando o ar. Tomávamos banho de cachoeira e trocávamos carinho. Quando éramos meninas, nossos dedos eram menores, no entanto mais sujos. Sempre manchados da terra de um terreno no qual construíamos as casas dos nossos sonhos, nas quais só cabiam nossos bonecos de revista. Eram menores, no entanto menos sensíveis. Nos feríamos com unhas mal cortadas e nos infectávamos com unhas ruídas. Quando éramos meninas, ninguém era mais bonita que você, na minha opinião. Gosto de imaginar que eu era a pessoa mais bonita para você. Era o que diziam os seus olhos enquanto você escovava os meus cabelos. Eu passaria horas só a te olhar até cairmos na gargalhada e rolarmos de rir. Quando éramos meninas, sentia que você me amava e nunca mais senti isso de ninguém. Eu te amava também, sem nem saber o quanto eu podia amar alguém.

13 setembro 2017

Da liberdade



Aqui eu sou livre para ser o que eu quiser.

Posso ser menina, posso ser menino, posso ser gente, ser fruta, ser material de construção, material escolar, material para um texto. Posso ser ponto, vírgula, letra maiúscula ou minúscula, parágrafo, prosa, poesia, silêncio, vídeo, foto, ficção, desabafo. Posso ser pássaro, uma revoada. Posso ser riso ou choro, ou prédios do Rio. Ou de São Paulo. Posso ser capital, cachoeira, praia, boia, biquíni ou banhista. Posso ser folha, ser flor, ser galho. Posso ser pássaro em cima de um galho. Posso ser comida ou comido. Posso comer ou beber, tomar banho, dormir, acordar, pentear o cabelo ou não. Posso gritar ou FALAR BEM BAIXINHO. Posso ler ou escutar, fazer, trazer, cantar, chorar e rir. Posso rir e posso amar.

Ah, como eu amo por aqui. Muito mais do que eu amo em qualquer outro lugar.

Posso amar o céu, o mar, minha casa, meu café, sua rede, seu gato, nossa música, nossos livros e os livros dele. Posso amar o pé, o corrimão, o armário, os ovos, as tigelas, a manta, o verde da parede e a luz que entra na janela de manhãzinha. Posso amar o vapor que sai da minha boca em agosto, as estrelas cadentes que eu imagino, as canções de Chico que tocam sem parar. Posso amar como eu imagino você vindo na minha direção, dançando. Ou o balanço que suas pernas fazem ao dançar.

Aqui sou livre para amar o que eu quiser.