20 setembro 2017

Meninas


Quando éramos meninas, você tinha mania de escovar os meus cabelos e de cheirá-los com paixão. Hoje eu sei que era de paixão o seu olhar que eu via refletido no espelho do quarto antigo da minha avó. E você então fechava os olhos, como quem se esforça para gravar na memória aquele cheiro, mesmo que no dia seguinte você me tivesse ali, a sua disposição. Quando éramos meninas brincávamos de ser casadas, mesmo que na época nada tivesse realmente um significado. Era só nossa vontade de ser menos menina, de crescer. Encenávamos brigas e reconciliações para evitar um divórcio desastroso como o dos seus pais. Quando éramos meninas acreditávamos no amor, apesar de não acharmos que o amor tinha tudo a ver com os beijos escondidos debaixo do lençol que dávamos quando dormíamos na mesma cama. Quando éramos meninas, os verões eram menos quentes e mais agitados. Corríamos. Ainda posso ver seu cabelo ondulando o vento, deformando o ar. Tomávamos banho de cachoeira e trocávamos carinho. Quando éramos meninas, nossos dedos eram menores, no entanto mais sujos. Sempre manchados da terra de um terreno no qual construíamos as casas dos nossos sonhos, nas quais só cabiam nossos bonecos de revista. Eram menores, no entanto menos sensíveis. Nos feríamos com unhas mal cortadas e nos infectávamos com unhas ruídas. Quando éramos meninas, ninguém era mais bonita que você, na minha opinião. Gosto de imaginar que eu era a pessoa mais bonita para você. Era o que diziam os seus olhos enquanto você escovava os meus cabelos. Eu passaria horas só a te olhar até cairmos na gargalhada e rolarmos de rir. Quando éramos meninas, sentia que você me amava e nunca mais senti isso de ninguém. Eu te amava também, sem nem saber o quanto eu podia amar alguém.

13 setembro 2017

Da liberdade



Aqui eu sou livre para ser o que eu quiser.

Posso ser menina, posso ser menino, posso ser gente, ser fruta, ser material de construção, material escolar, material para um texto. Posso ser ponto, vírgula, letra maiúscula ou minúscula, parágrafo, prosa, poesia, silêncio, vídeo, foto, ficção, desabafo. Posso ser pássaro, uma revoada. Posso ser riso ou choro, ou prédios do Rio. Ou de São Paulo. Posso ser capital, cachoeira, praia, boia, biquíni ou banhista. Posso ser folha, ser flor, ser galho. Posso ser pássaro em cima de um galho. Posso ser comida ou comido. Posso comer ou beber, tomar banho, dormir, acordar, pentear o cabelo ou não. Posso gritar ou FALAR BEM BAIXINHO. Posso ler ou escutar, fazer, trazer, cantar, chorar e rir. Posso rir e posso amar.

Ah, como eu amo por aqui. Muito mais do que eu amo em qualquer outro lugar.

Posso amar o céu, o mar, minha casa, meu café, sua rede, seu gato, nossa música, nossos livros e os livros dele. Posso amar o pé, o corrimão, o armário, os ovos, as tigelas, a manta, o verde da parede e a luz que entra na janela de manhãzinha. Posso amar o vapor que sai da minha boca em agosto, as estrelas cadentes que eu imagino, as canções de Chico que tocam sem parar. Posso amar como eu imagino você vindo na minha direção, dançando. Ou o balanço que suas pernas fazem ao dançar.

Aqui sou livre para amar o que eu quiser.

29 agosto 2017

Cinema independente



Eu imagino sua vida como um filme independente. A fotografia fria, meio desfocada, um roteiro conciso, objetivo, com pouco diálogo. Algumas cenas de nudez, algumas piadas despretensiosas, mais ou menos como as piadas que se fala no dia a dia. Uma cena de noitada aqui, uma festa de amigos ali. Entre elas um monte de cenas em um apartamento pequeno e decorado da maneira mais cool que se possa imaginar. É para lá que você leva seus garotos e os beija sem o compromisso de uma relação. Ainda que eu saiba que sobra em você um pouco de romantismo, eu te imagino cínico. Eu diria sem esperanças, mas a verdade é que você só é adulto. Nesse cenário, você sabe que qualquer intensidade é puro artifício de filme ruim, então você leva a sua vida como se ela não fosse real, definitiva. Você bebe café e fuma um baseado. Isso ajuda a passar o sábado mais rápido. Vê um filme em casa, come mal, toma banho e usa o telefone celular para encontrar seus amigos. Você não trabalha porque não é esse tipo de filme. Ou trabalha, mas não tem muita importância. É um estilo de vida jovem, europeu, que só faz as coisas andando. Ou de trem. Não é muito consumista, gasta com viagens, onde você conhece outros garotos, ama outros garotos, esquece outros garotos. Tudo se passa em no máximo uma hora e meia. Momentos silenciosos, uma trilha sonora discreta. No fim, uma música de uma banda indie que ninguém conhece. Ousado na medida certa, real de modo que a audiência se identifique, legal para virar um clássico hipster. Quem liga se ser hipster já saiu de moda?

22 agosto 2017

Preta



Sentaram na beirada da fonte artificial e não havia nada mais artificial do que o ar que os rodeavam. Trocaram palavras de desabafo misturadas a palavras de encorajamento. Ninguém percebia naquele momento a importância daquelas palavras. Foi automática a cumplicidade, mesmo que as palavras fossem tão diferentes. No fundo tocava uma música e então eles estavam na pista de dança. Rodeados daqueles corpos que um dia conheceriam. Como eram inocentes aqueles dias! Beberam, riram, dançaram. Em uma época pré Instagram Stories ainda era possível se divertir com um desconhecido. Ninguém jamais irá lembrar se houve carona, quem pagou a conta e se marcaram outro programa para celebrar aquela estranha amizade. Ninguém jamais lembrará se alguém voltou bêbado, se houve briga no estacionamento, se esbarraram com alguém doido de cocaína. Arrisco a dizer que ninguém nem ao menos lembrará das músicas que ouviram, das conversas, do sabor artificial do ambiente perfumado. Será que alguém lembra ainda das palavras, dos desabafos, da fonte?