15 agosto 2017

Aqui



Parece que éramos só eu e você os normais no meio desse oceano de músculos e porra em que vivemos. Não é à toa que grudei em você. E que seguimos até hoje mais ou menos assim. Mesmo que eu não te veja, nem fale contigo. Ainda lembro daquela sensação de exclusão que tínhamos naquela época. Ninguém por aqui parecia dar importância para as coisas que dávamos. Ninguém falava nada próximo à nossa língua. E ainda é assim. São vários corpos malhados. E, quando não são malhados, são vidrados nesses corpos malhados. São vários corpos mortos e estúpidos, falando besteira, agindo com o rei na barriga, mascando chiclete e rindo da maneira como eu masco o meu chiclete. É tão hostil que não dá mais vontade de sair de casa, mais ou menos como você se sentia quando eu só ignorava tudo o que acontecia por aqui. Eu lembro que a gente tentava. A gente dava chance para não ser acusado de elitista, de arrogante. A gente chegava simpático, aberto. Até sentir que olhavam para a gente como se a nossa testa estivesse suja de cocô. Ainda é assim. Todo mundo só fala de sexo e de comida vegana. De sol, de festas e de Britney. Todo mundo se acha muito bom porque assiste série ruim, porque vê o filme da moda e porque não tem espinha no rosto. Porque mora bem, porque tem um emprego e tem disposição para sair sexta, sábado e domingo. São tantos corpos em camisas floridas, calças jeans rasgadas, segurando iPhones em uma mão e um drink doce na outra. Eu fico me perguntando se você mudou, se por aí você se juntou a caras assim. Se é que tem caras assim por aí. Às vezes eu acho que só aqui para as pessoas serem assim. Eu prefiro nem saber. Se for o caso nem me responde. Não é como se a gente tivesse que ser os underdogs para sempre. Mas não quero imaginar um lugar em que você ria de alguém como riam da gente. Que você cochiche falando mal de alguém deslocado, que se vanglorie das suas realizações e das suas transas. Eu prefiro nem saber. Prefiro manter você como você era aqui, aquele que não se encaixava, que não combinava, que tinha desprezo por esse tipo de gente superficial. Pode ser bobeira da minha parte, egoísmo não permitir que você mude. Mas por aqui tem tão pouco para mim, ainda hoje, que eu acho que eu tenho o direito de ser assim.

08 agosto 2017

Errado



Então eu estava errado quando dormimos na mesma cama. Quando você reclamou da sua namorada. Quando assistimos pornografia juntos. Quando você tirou sua roupa na minha frente, ainda um pouco excitado, e entrou no banho. Eu estava errado quando você me chamou para tomar banho com você. Quando ficamos nus e molhados. Eu estava errado quando você me confessava em segredo que só eu te entendia. Que eu era a sua pessoa favorita. Eu estava errado quando percebia tantas coisas em comum entre a gente. Quando passávamos horas conversando no telefone. Quando planejávamos viagens juntos para conhecermos os lugares que sempre sonhamos conhecer. Eu estava errado quando decidimos passar metade do dia juntos, diariamente. Quando você ainda queria passar umas horas a mais. Estava errado quando achei que você tinha saudades de mim quando foi exatamente isso que você disse. Eu estava errado que nossa relação era estranha. Que uma simples amizade não funciona desse jeito. Eu estava errado quando achei que o que a gente tinha era mais do que amizade. Eu estava errado porque sonhei que um dia tudo ficaria claro entre a gente. Que iríamos ficar juntos para sempre. Que uma história como a nossa não acaba mal. Eu estava errado quando decidi me abrir para você. Estava errado quando achei que você me olharia com ternura e o que eu vi no seu rosto foi raiva. Quando vi no seu rosto uma raiva de mim que nunca vi você sentindo por ninguém. Estava errado quando achei que eu era especial. Quando achei que você só precisasse de tempo para se entender. Quando esperei um carinho imediato seu. Eu estava errado quando deixei que você visse a minha mais verdadeira face. Quando falei tudo o que eu precisava falar. Estava errado por ter te dado um ultimato. Por ter achado que eu sairia vencedor dessa negociação. Que você dormiria mais uma vez do meu lado. E mais uma vez. E mais outra vez. Então eu estava errado.

01 agosto 2017

Do armário



O armário é real. E são muitos. Um dentro do outro, como uma matrioska. O armário é infinito. A primeira porta que minha cara bateu foi aquela que meus pais implantaram sem nem perceberem, dizendo que menino faz isso e menina faz aquilo. Mas eu era só um menino querendo fazer coisas de todos os tipos. A segunda foi quando eu me apaixonei pela primeira vez e mal sabia ler e escrever. Escrevi que amava e fui pego no flagra. Aquilo não estava certo. Depois veio a porta da vergonha, do constrangimento, da humilhação. Por causa do meu tom de voz, da maneira com que eu me sentava ou que eu mexia meus braços. Descobri que eu tinha de ser mais rígido comigo mesmo do que eu vinha sendo. Literalmente. Não bastava me negar meus amores inocentes, nem minha vontade de me expressar. Eu precisava agir de um modo diferente do que eu agia espontaneamente. Nessa porta eu fiquei preso por anos, falando baixo, sussurrando para as vidas transparentes que me rodeavam. Sobras de vida. Sombras. Encontros escuros, decepções, mentiras e então quebrei a porta de fora antes quebrar a porta de dentro. Essa porta eu só quebrei com a minha cara transfigurada, inchada. Sangrando. E quando achei que veria a luz do dia, o que vejo é mais uma porta. Veio a porta dos meus amigos que só estava encostada. A porta da minha mãe, que eu abri com um giro leve na maçaneta. A porta do trabalho, que tive de destrancar. Tudo com elegância, sem fazer força. Mas aí vem a porta do medo, da notícia que diz que matam meninos, que os espancam, da estatística, dos absurdos das redes sociais, dos comentários dos portais. Estou preso na minha própria porta agora, tentando achar uma maneira de abrir e de entender quem sou. Vai saber o que tem lá fora? Provável que sejam outras portas. Vai saber a dificuldade de passar por essas novas portas? Futuras. Não sei. Mas a curiosidade e a necessidade de viver, de respirar, me dão ânimo para não fraquejar. Eu não preciso de mais portas. Mas preciso sempre ultrapassá-las.

17 julho 2017

Karma



Sempre esteve escrito nas estrelas, desde o dia em que você nasceu, através da posição dos astros, não adianta mudar a posição em que as pedras de búzios caiam, a lua determinou. Não adianta simpatia ou macumba, nem apelar para deuses escusos, nem pra deuses conhecidos. Não queira correr, é seu destino, é seu karma. O zodíaco é claro, bem como o horóscopo chinês e as linhas que se formam na sua mão. Não discuta, não insista, não faça barulho. Aceite os sussurros divinos dizendo o que eles decidiram há séculos atrás. O caminho da sua alma penada está traçado e provavelmente documentado em algum papel escondido, talvez nas costas de alguma carta do seu baralho velho, na nuvem quase opaca que se forma ao seu redor, onde está sempre chovendo. A chuva também tem seu motivo. Não abra guarda-chuvas, não chame por nomes de surdos, não leia de cabeça para baixo, não ouça ao contrário. De que vale acender velas e se ajoelhar?, de que vale fazer preces?, de que vale se vestir de branco? Está tudo decidido há milênios, já é conhecido de trás pra frente em todos os estados, em todas as borras de todos os cafés. Escute o vento que aos poucos te empurra do precipício e não resista a cair pois, acredite, lá embaixo há uma cama elástica cheia de pétalas de flores, cheia de corpos transados para que seu futuro seja de risos e sexo.