17 julho 2017

Karma



Sempre esteve escrito nas estrelas, desde o dia em que você nasceu, através da posição dos astros, não adianta mudar a posição em que as pedras de búzios caiam, a lua determinou. Não adianta simpatia ou macumba, nem apelar para deuses escusos, nem pra deuses conhecidos. Não queira correr, é seu destino, é seu karma. O zodíaco é claro, bem como o horóscopo chinês e as linhas que se formam na sua mão. Não discuta, não insista, não faça barulho. Aceite os sussurros divinos dizendo o que eles decidiram há séculos atrás. O caminho da sua alma penada está traçado e provavelmente documentado em algum papel escondido, talvez nas costas de alguma carta do seu baralho velho, na nuvem quase opaca que se forma ao seu redor, onde está sempre chovendo. A chuva também tem seu motivo. Não abra guarda-chuvas, não chame por nomes de surdos, não leia de cabeça para baixo, não ouça ao contrário. De que vale acender velas e se ajoelhar?, de que vale fazer preces?, de que vale se vestir de branco? Está tudo decidido há milênios, já é conhecido de trás pra frente em todos os estados, em todas as borras de todos os cafés. Escute o vento que aos poucos te empurra do precipício e não resista a cair pois, acredite, lá embaixo há uma cama elástica cheia de pétalas de flores, cheia de corpos transados para que seu futuro seja de risos e sexo.

10 julho 2017

À distância



Não importa quão longe eu vá. O meu amor vai estar ainda distante. Hoje ele está em Búzios, de shorts e cabelos ao vento. Eu estou aqui, sentindo o vento das Minas Gerais. Aquele vento que tem voz grave e assustadora. Ou é isso, ou é a solidão aqui no meu quarto, enquanto eu converso com ele pela tela do meu computador.

Às vezes penso que eu não tenho mais idade para isso, lidar com um relacionamento sem ter carne e sem ter osso. Às vezes eu acho que é o vento que berra isso tudo nos meus ouvidos e me deixa louco. Não sei até quando suporto ser louco e sozinho. Não sei até quando suporto imaginar as praias que sopram o vento do lado de lá do meu amor, enquanto eu só sinto o vento dos vales daqui.

Entre uma briga e outra, que eu acho que existem pra manter esse amor distante ao menos vivo, nós dormimos. Eu gostaria que ele deixasse a tela ligada, pra que eu pudesse ver quando a pálpebra dele pesasse. Ver quando o dia dele terminasse. Só então, à distância, eu poderia terminar o meu.

03 julho 2017

Vegas



Foi depois de ter entrado no dark room, de ter tocado em várias pessoas, de ter sentido suas peles úmidas e suas unhas. Depois do beijo doce, do cabelo fino. Depois de achar que o cabelo era branco, porque de alguma maneira doentia lembrei do cabelo da minha avó. Veio a língua áspera no meu pescoço e a quantidade de doenças bucais que eu listei naqueles segundos na escuridão. Possibilidades. Ah, as possibilidades!

Eu me lembro de como a parede caiu quando você gemeu e de como minha camisa ficou suja para sempre. Bêbado, eu saí dali, saí dele. Extasiado, iluminado, sentindo o cheiro de cigarro e de perfume importado. Sentindo o cheiro de suor, sentindo a energia das pessoas que cheiravam cocaína, que pairava no ar. Eu me lembro de ter girado, de ter olhado todos os rostos, da stripper no palco, dos pentelhos ruivos, em brasa. Eu me lembro de ser visto por você, lá no canto. Dos seus olhos meio caídos, alcoolizados, desistentes, sentados. Eu me lembro do tecido da poltrona, do vinil, do barulho do vinil, do cheiro, do suor. Eu me lembro do seu suor e da música que estava tocando quando eu sequei sua testa. Eu me lembro da vontade de te beijar, da vergonha de te beijar, daquele momento que precede os grandes acontecimentos que costumam nunca acontecer na minha vida.

Eu sempre me lembro desses momentos.

26 junho 2017

Gouinage



Eu o encontrei no ônibus, entre o banco de número três e o de número cinco. Era uma época em que eu adorava andar de ônibus, justamente por causa da chance de encontrar no ônibus tipos como ele. Ele era magro, mas não exibia fome alguma nos olhos rosados que ostentava no rosto fino e ossudo. Ele todo era ossudo, pude ver por baixo do algodão preto que lhe cobria o peito com finos e curtos fios de pelo que cresciam desde que ele tinha doze anos, lá no interior de São Paulo. A cabeça longa começava num queixo sem forma, com alguma barba já crescendo, e terminava numa cabeleira comprida, mas rala. Preta. Ele me falou com a voz enrolada que queria tomar um café na minha casa. Eu nem sabia seu nome. Quando descemos, no ponto aqui perto, já tinha sol nas nossas cabeças e ele me olhava com aquele ar de inebriado que a noite passada lhe dera. Olhava-me como se eu fosse de outro planeta, pé ante pé, sorria bobo e espremia os olhos para me enxergar ou para deixar de me ver. Descemos a ladeira em silêncio. Talvez ele estivesse pensando na dificuldade que seria descer a rua de pedras depois de tanta noite na cabeça, pé ante pé. Eu pensava na falta de café aqui no armário. Pensava no contorno que a perna magra dele tinha debaixo do jeans, no caminho de pêlos que lhe subiriam até o umbigo e que causariam ali naquela região um tornado, um furacão. Pensei na pele dele despida e quase gemi vendo um trechinho branco, quando ele levantou o braço e apoiou-se na parede do corredor, cansado. A porta estava mais uma vez aberta, como sempre está aberta para quem quer tomar um café. Naquela manhã, tomamos café no meu quarto, ainda que não tenhamos comido nada.

19 junho 2017

Do mundo



Nasci no mundo e sou feito de carne e osso. O que junta a minha carne ao meu osso é esse meu eterno estado de solidão, que é típico desse maldito mundo. Esse mesmo do qual faço parte. Onde, de tempos em tempos, ecoa a minha gargalhada, que eu nem me lembro ser minha mais. Por um minuto, um minuto que parece mais veloz que os minutos normais, o mundo se abala, minha carne se solta, prevejo o caos frente à falta de estrutura. Quando olho ao meu redor, não vejo viva alma, tremendo dos pés à cabeça como estou. Sobem fantasmas com corpos perfeitos, sorrisos maliciosos, olhos úmidos. Eles me olham com fome, mas só com fome, que também é típica desse maldito mundo. Por um minuto, o mundo vira um paraíso e eu até vejo motivo em ser desse mundo de novo. Sinto o prazer desse mundo e dos outros malditos que também são dele. Então ele some, o mundo. E eu fico de novo sem dono, perdido.