23 junho 2011

Macarrão com carne moída


Ele só queria aquilo. O outro só queria dormir. Deitava de lado, no sofá mesmo, entre um filme água-com-açúcar e outro delicado que passava em qualquer desses canais de filmes femininos.

Dizia que o problema era o trabalho, que não agüentava de cansaço, ainda que as coisas estivessem bem entre eles na altura do joelho. Não gostava de forçar, já tinha perdido vários com tanta força. Diziam que ele só queria saber daquilo.

Dessa vez fez café-da-manhã e deixou-o dormir. Da vez seguinte fez o almoço e depois o jantar. Macarrão com carne moída, que era a única coisa que não salgava demais. Comprou refrigerante de uva porque viu na revista que era bom para relacionamentos sérios. Afinal de contas, era isso que queria.

O sono não passava, o fim de semana só passava. Na rua, os meninos descamisados cresciam, mostravam os músculos e passavam gel no topete. Ele bebia a cerveja toda que estava na geladeira, fumava o cigarro todo que ficava do lado do computador e esperava que o sono passasse.

Entre um cigarro e outro, fazia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída. O outro dormia, mantendo o relacionamento sério pelo qual tanta ansiara. Pensava que a juventude lhe traria um pouco de virilidade, força. Mas a única força que via era a força que fazia para tentar tirá-lo da cama.

Mas a cama sempre ocupada. Sempre por um e por mais ninguém. Aquele que comia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída e uma pitada de raiva do mundo.

5 comentários:

  1. Estar bem na altura dos joelhos, não é tudo. É preciso variar o cardápio.
    Bjão

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  2. gente... preciso pensar... me incomodou...

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  3. Uma pitada de raiva do mundo é pouco.

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  4. Clap,clap, clap.

    Admiro as possibilidades de seus textos. As interrogações que me faço quando leio. E, por tabela, o receio em comentar alguma coisa que só eu posso ter imaginado...

    Para mim, este sério relacionamento não tem jeito. Coisas à altura do joelho e forças e sonos versus insônia são uma equação que, pra mim, tem poucas chances de ter bom resultado. Mas isso é a minha matemática, né?

    Xêro!

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  5. Nossa, esse texto me trouxe um sentimento, muito estranho, mas muito bom. Que legal!

    Parabéns, de verdade'

    abraço!

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