21 fevereiro 2010

Indie é a Mallu Magalhães

Ela me disse assim, sem mais nem menos, sem carinho e sem nenhum tipo de preparação para o meu estômago: ele era indie. Indie pra mim é quem ouve música underground, freqüenta locais underground, quem vai em qualquer lugar do Grupo Matriz, aqui no Rio. Devem existir outros Grupos Matriz pelo resto do país. Assim espero, a bebida lá é boa, mas eu não sou indie.

Indie pra mim se confunde um pouco com rock ou rock pra gays. Se confunde um pouco com emo, ou emos inteligentes e bem vestidos. Vestidos, porque emos se fantasiam. Indie não tem o preconceito que eu tenho.

E ele era indie. Ficou assustado quando chegou ao Rio pela primeira vez, sozinho, na rodoviária. A zona portuária do Rio é realmente de assustar. Ainda mais sendo indie. Vestindo colete grosso de linho, gravata, calça de tecido e calçando um All Star velho.

Alguns diziam que ele só era um menino pobre, morador de um bairro da periferia do fim do mundo, inteligente e que usava as roupas (e talvez o gosto musical ou ainda outros gostos) para se destacar no visual desagradável onde crescera. Ela pagava o quarto de motel pra eles.

Isso já dizia algo, porque dizia que ele comia ela. Ou talvez ela comesse ele, com molho Teriyaki, que era o nosso preferido. Mas aí ela me falou da roupa e da sua atitude cult-vintage-uso-roupa-de-brechó-mesmo. Só faltava ele saber quem era Lady GaGa. Pior se ele soubesse como pronunciar os primeiros versos de Bad Romance.

Mas ele ia em festa de rock, era indie e Lady GaGa é muito pop pra quem é efetivamente indie. Na periferia do fim do mundo também existe cultura indie e ele estava aí pra provar isso. Apesar de tudo isso, às vezes era ele quem ela queria. Principalmente à noite, quando os outros estavam de folga.

Aí ela falou sobre um carnaval, porque afinal de contas era carnaval. Outro carnaval. Me desculpem as histórias de carnaval. Mas meu carnaval só deixou isso: histórias.

E nessa história, o menino indie que dizia que não queria crescer e falava Peter Pan com a pronúncia mais correta possível, sem sotaque do fim do mundo nem da periferia de lá, esse menino beijou um menino. Ele era conhecido como Xuxa. Sim, a rainha dos baixinhos. Seu irmão também beijou ele. Mas nunca soube se o irmão era indie ou se era gay.

Vai ver é moda entre os indies. Vai ver é moda entre os emos. Eles são a moda da década. Os grunges já foram, outrora. Mas não, ele era indie. Devia ouvir Feist e Cat Power. E não é porque ele era gay, é porque ele era indie.



Ela pagava o quarto de motel, gente. Isso prova que o beijo na Xuxa não significa nada. Vai ver é sonho de infância. Vai saber. Vivendo na periferia do fim do mundo. Ou então ela gosta muito de molho Teriyaki. Eu gosto.


Ouvindo: Seven Nation Army – The White Stripes

4 comentários:

  1. Nêga que pagou o motel22 de fevereiro de 2010 19:56

    eu sou comunista, ele um fascista
    gosto de samba, ele de rock
    vejo BBB, ele lê Freud
    ando de trem, ele não corre p pegar o ônibus

    mas ele me deu a certeza q já fui amada nessa vida e q amei...e não existe nada mais divino do q isso

    e como ele me disse no Natal:
    "Então,
    até logo mais
    quando a gente se reencontrar.
    Te amo"

    Isadora Pereira

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